Não é no êxtase das canções que o homem verá o Senhor, mas é pela santidade que ele O verá! A santidade só será possível pelo Espírito e pela Palavra de Deus (“vós já estais limpos pela Palavra que vos tenho dito”), por isso mesmo, nas canções “nunca devemos abandonar ou menosprezar as palavras, tentando adorar a Deus por meio da música” (Louvor em Crise, p. 45). Quando se faz isso, deixa de ser adoração, pois não é pela fé, passa a ser romantismo, pois é pela ilusão das obras de êxtase (uma busca, à moda carpe diem, pelo nirvana para ser absorvido pelo espírito impessoal e ilusório de Brahma). Isto tudo é Woodstock com sua versão evangélica Willow Creek, mas nunca foi o ensino do Senhor sobre a verdadeira adoração – que deve ser sempre em Espírito (na graça, no arrependimento e na fé) e em verdade (na Palavra da cruz de Cristo). Derramamentos podem sobrevir sobre o adorador? Sim, mas somente se vier do alto, do Pai das luzes, nunca poderão ser fabricados pela música. Aliás, os derramamentos só virão quando a Palavra de Deus habitar intensamente no coração do homem e este passar a buscar ardentemente o conhecimento da Glória de Deus na face de Cristo, o verdadeiro tesouro do homem (2 Cor 4.6-7). Daí que a chuva de bênçãos não vem pela música, mas pela fé. A música verdadeira, de fato, fala de Cristo - a alegria de todo homem, mas em última instância é a Cristo que desejamos e não à música. A música é a expressão da alma, Cristo é o ANSEIO da alma.
Alguns batistas e pentecostais acusam os calvinistas presbiterianos de terem uma liturgia morta no que tange a adoração, pois estes excluem de sua teologia o papel da música na adoração. Dizem os calvinistas: “a música não cria a adoração, não tem poder na adoração, ao máximo cria emoções”. Por essa razão os cultos presbiterianos não possuem recheios instrumentais, no máximo um órgão e um piano. As canções contemporâneas são sempre sentenciadas à qualidade de heresia. Mas é preciso que se vá às questões mais profundas e essenciais desse assunto. O Senhor nos mandou adorar com toda a força e razão, com todo o ser e o coração. O que os calvinistas não entendem é que a música a mais alta expressão da alma e do coração. Ao tentarem negar muito do que diz respeito à área subjetiva, e enfatizar o objetivo da Glória de Deus (o que é para mim o caminho correto), os calvinistas deixaram escapar o valor da música como expressão da alma.
O impressionismo é a característica marcante da arte calvinista que dá prioridade absoluta ao objeto. Cantam-se hinos que bendizem a grandeza de Deus – o objeto da nossa adoração. Isto é demais, é perfeito, é o que defendo. Mas eles esqueceram do subjeto, do sujeito. O sujeito da adoração é o homem, é sua alma, e Cristo ensina isto (Mt 22.37). O impressionismo calvinista procura imprimir a Beleza do Criador nos hinos. É perfeito. O problema é que eles negaram o papel das emoções e da alma no cantar desses hinos. Quando a alma se emociona, ela passa a expressar seu amor pelo Senhor, o maravilhoso e belo Criador.
Por outro lado o problema do Willon Creek (a primeira igreja a negar as palavras e supervalorizar a irracionalidade dos mantras) é o seu demasiado expressionismo, ou seja, a música como pura expressão da alma em detrimento da palavra revelada e da razão. Passa-se a buscar a Deus através do que o coração sente e não através do que Deus já revelou na beleza da criação e nas Santas Escrituras.
Eu como batista que sou, tenho a herança tanto do impressionismo quanto do expressionismo. Os batistas presam pela qualidade coral e pelos lindos hinos da fé. Isto tudo se caracteriza como arte impressionista, onde a música reflete a beleza objetiva de Deus (aquela que está fora do homem, a beleza do próprio Deus). Neste sentido a música assume caráter de obra. É uma obra de arte, feita para se ouvir e se apreciar. A princípio não é expressiva, não vem de dentro, mas de fora, vem da beleza de Deus que tanto impressionou o compositor. Por outro lado, foi na “minha igreja” que surgiu o gospel, o spiritual e de certa forma, o blues. Na verdade, os batistas sinceramente não podem sentenciar como heresia o gospel, foram eles mesmos que criaram, a saber, no sul dos Estados Unidos. Tudo o que vem daí surgiu na igreja batista do sul dos Estados Unidos. O rock pop surgiu daí também de certa forma. Elvis Presley aprendeu a cantar em uma dessas igrejas. Estas artes são totalmente expressionistas. Não há contemplação da natureza, mas a pura expressão da alma em forma de alegria, agradecimento, e principalmente pedido de socorro. É pura música de consolação. O problema dessa arte é o esquecimento da Palavra, das grandes verdades doutrinárias da fé, da Palavra da Cruz, pois se preza pela busca de consolo para os sofrimentos da alma. Por isso que Sartre, o existencialista, apreciava tanto esse tipo de música. Nada da Palavra, tudo do coração. Puro expressionismo. Na verdade essa foi a maior característica da arte de vanguarda do início do século 20, no Brasil foi oficializada na Semana da Arte Moderna na década de 1920.
Como batista confesso, defendo que a música de adoração deve ser motivada e composta por conta da Beleza da Glória do nosso Deus – nosso maior anseio, mas expressa de todo o coração, emoções e principalmente, ações de graças. Essa parte cabe ao homem e ele deverá se expressar. Contudo, na fé, e não através de mantras. Assim a música precisa ser composta na Palavra de Deus, precisa conter as grandes verdades e excelências de nosso bendito Criador, a partir da daí, a alma impressionada com tanta Glória e beleza, expressará seu amor pelo Criador.
Quando a verdadeira música surge é porque a alma – compositora - já transbordou de amor e afeição pelo criador. A música existe porque existe a alma. A música é a própria alma fora do corpo em forma expressiva. Que maravilhosa linguagem dada por Deus, o criador da alma! A música tem em suas dimensões o valor (o amor), a forma (melodia, harmonia e ritmo), e o fato (ela se comunica através do som). O grande erro da nova forma de louvor (fundada em Willon Creek, dos hippies convertidos da década de 60) foi o de atribuir à música a qualidade salvífica. Apenas a oferta de Cristo em sua cruz pode ter esse atributo salvífico. Trazendo a herança romântico-panteísta dos Beatles de sua fase hinduísta, os hippies convertidos ao evangelho talvez não tenham conseguido santificar suas almas, pois adoraram a música como se Deus fosse um espírito impessoal totalmente imanente na música visto que ela tem um poder impressionante, indescritível, hipnótico. Deus é Deus, música é música, mas os hippies sintetizaram os dois. Aliás, a síntese é a principal doutrina romântica, muito pregada por Hegel, o pai romântico. A síntese e o diálogo (quando a tese e a antítese atingem juntos o logos) são as bases do panteísmo romântico. Assim, pensavam os hippies que a tese (Deus) e a antítese (as coisas que se podem sentir como a música) pudessem juntas se fundirem criando a síntese (a música como forma de encontrar Deus). Por isso se crê que através dos mantras musicados, das repetições exaustivas, Deus se revelará em sua Shekinah. É como se dependesse dessas técnicas para que a igreja possa ver a fumaça de Deus. Não, não é assim. Deus se revela quando quer através de suas chuvas de bênçãos. Ora o nosso papel é derrubar sofismas e filosofias dos homens e por fim glorificar a palavra de Deus. O Senhor já habita poderosamente em cada filho seu. Esse é o mistério oculto em todos os séculos e em todas as gerações: é Cristo em nós, a esperança na nossa redenção completa. O Tesouro já foi descoberto. Já possuímos Cristo, Aleluia, não precisamos de mantras para atrair a fumaça do Espírito. O Espírito já nos alcançou. O Espírito de Cristo já nos alcançou, oh aleluia! Podemos cantar palavras de poder, a palavra de Deus, pela fé, pois Deus já se revelou e quando Ele quiser, tão somente quando Ele quiser se revelar visivelmente, o fará, mas não por causa de mantras musicais. Enquanto ele não decide descer em chuvas de bênçãos de avivamentos, continuamos com os meios da graça já nos dado por Cristo, a saber, a comunhão, a ceia, o batismo, a adoração e a pregação. Assim como os homens antigos dançavam para atrair a chuva, hoje a igreja erroneamente quer recitar irracionalmente mantras para atrair as chuvas do Espirito. É um erro tremendo. Mas a maioria das igrejas hoje estão assim, pensando estarem no caminho correto.
Quanto a questão da igreja Willon Crek, penso que não é tão simples assim de resolver. Sentenciar a música de Willon Creek como herética sem antes pesquisar o porquê dessa música ter estas características que dizem ser místicas seria perigoso. Mesmo que apenas do ponto de vista humano, o filósofo Schopenhauer, um dos pais do romantismo do sec. XIX, ensina que a música é a expressão direta da alma. Foi a partir do pensamento desse filósofo que os hippies basearam sua concepção do coração e da vida no que diz respeito a música. No entanto o que muito me atrai é pensar nesses hippies convertidos da igreja californiana de Willon Creek. Atrai-me pesquisar esse assunto porque lembra a figura dos três reis magos do oriente. Magos panteístas foram alcançados pela graça divina para verem com seus próprios olhos o primogênito de toda criação. A partir dali todo panteísmo caiu por terra. Daquilo que os magos pensavam (que Deus é um Espírito impessoal totalmente imanente no amor) caiu por terra. Deus é realmente uma pessoal que se relaciona. Tem relacionamento eterno com Seu Filho querido e com o Seu Espírito Santo. Deus nunca precisou do homem para ser feliz. Ele é feliz e autossuficiente. É justamente por ter esse relacionamento eterno que ele é um Ser pessoal, pois somente as pessoas podem se relacionar, ou seja, compartilhar valores como o amor. Nosso Deus é uma pessoa, aleluia! Mas Deus se agradou em revelar a sábios românticos (panteístas) sua pessoalidade. Ora o mesmo aconteceu com os ex-hippies da Califórnia na década de 60. Como falamos de música nesse texto, a questão que podemos apreender a partir do fenômeno hippie é: a música, apesar de não ter o poder de atrair Deus e muito menos de salvar, teria por outro lado - como sendo de fato exata expressão da alma do homem - o poder de auxiliar o homem na expressão de seu amor pelo criador, visto que o Senhor nos deixou o seu mandamento, qual seja, amar a Deus de todo o coração, de toda alma, de todo entendimento e de toda força (Mt 22.37). A música não fabrica o amor, este vem de Deus, mas ela auxilia o homem em sua expressão de amor.
Outra questão interessante: por que os hippies diziam sempre que a música fala de algo eterno, de uma alegria inalcançável, de um paraíso que já se foi? A música fala daquilo mesmo que a Palavra de Deus prova. A música diz que existe algo além do que vemos neste mundo, mas não pode afirmar o que é! Ora a música em si (como a arte suprema da alma), fala de Deus. Toda alma possui o sensus divinitatis (o senso de divindade). Toda alma no fundo no fundo sabe que seu Criador é real. A música como expressão da alma, naturalmente vai deixar escapar essa verdade. Ela vai sempre indicar o Criador, pois quando a alma está a ponto de se expressar em forma de música, nada mais poderá ser escondido, a música desarma qualquer arrogância humana. No entanto, ela não consegue dizer qual o caminho para chegar a esse estado supremo de felicidade (a presença de Deus). Apenas Cristo pode nos dar esse presente indescritível. Daí que quem já tem Cristo, pela fé pode adorar o Criador. A música não pode salvar nem conceder o caminho, isto só Jesus, mas pela fé no objeto de nossa adoração, a alma redimida se alegrará em forma de música. No contexto da comunhão da igreja, a alma do compositor compartilha expressão de amor com as almas dos santos através de sua música, há uma união dos santos, e todos em abundância de vida, passam a adorar o Criador.
Nenhum comentário:
Postar um comentário