segunda-feira, 18 de junho de 2012

Não mereço o amor de Deus!


Eu não mereço o amor de Deus. Por mais eu seja formado pelo Seu Espírito que comum e graciosamente habita em mim como também em todos os homens, sejam salvos ou não, esse tesouro que em mim habita não me qualifica a merecer o amor de Deus, pois deliberadamente eu sempre busquei o pecado sem pestanejar. Antes de o Espírito Santo me regenerar e passar a habitar em mim não mais apenas com sua graça comum, mas também com sua graça salvadora abrindo assim meus olhos para ver a glória de Deus na face de Cristo, a minha busca pelo pecado era a minha religião, era o que eu amava. Por isso, por mais que eu diga que todos os homens possuem um tesouro que é a graça comum do Espírito Santo habitando neles que de forma misteriosa e pelo poder de Deus essa graça foi transformada num espírito pessoal e humano que se chama “eu”, estes não possuem dignidade própria, pois são pecadores malditos. Como isto é terrível: o mesmo homem que vive por que tem o Espírito de Deus comumente dentro de si é o mesmo que nega seu Criador e ama o pecado. Quanta humilhação Deus não tem de sofrer em seu Espírito por nós! Ele se humilhou em Seu Filho na cruz, Ele sempre se humilhou desde adão e continua se humilhando até o presente quando mesmo um cristão peca! Mas terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo, quem ainda não caiu é porque está sendo coberto de misericórdia e graça, mas quando o Senhor resolver se afastar em ira, que terrível fim este homem terá, pois não soube aproveitar a grande paciência com que o Senhor o tratou para se arrepender e crer! Toda a glória, honra, força e poder sejam dadas ao Senhor Jesus, nosso salvador, que com eterno amor nos amou e nos atraiu e que com sua cruz nos reconciliou com o Pai. Em postagens anteriores costumei dizer que nossa alma era formada de amor por sermos criados à imagem de Deus. Mas, se nossa alma fosse formada de amor, eu sempre amaria meus próximos. No entanto, eu, às vezes, os odeio, tenho inveja. Minha língua é homicida quase que diariamente, pratico a mesquinharia! Sou miserável e orgulhoso, quando estou distante de Deus e não estou bem com minha esposa, pratico o adultério com meus olhos! A palavra de Deus nunca afirmou que nossa alma é formada de amor, o que eu fiz na verdade foi uma construção filosófica, prática que adquiri no curso de mestrado em teologia. Na verdade o amor não é o Espírito, mas um fruto do Espírito (Gl. 5), o Espírito Santo é Deus. Se fôssemos formados de amor, amaríamos a Deus, mas “não fomos nós que amamos a Deus, ...foi Ele quem nos amou e enviou Seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (Jo. 4.10). Não somos dignos desse amor e ainda respiramos por conta das ternas misericórdias de Deus, senão já estaríamos consumidos por nossos pecados.

Que grande perigo corri ao tentar analisar a formação da alma do homem por critérios humanos! Que perigo é esse? Ao me centralizar na alma humana, poderia me decair a esquecer do poder de Deus que a tudo excede. O homem certamente é incrível, mas o poder de Deus é mais incrível ainda! Centralizar-me no tesouro do homem (seu espírito pessoal), poderia me levar a tornar-me um panteísta evolucionista que se firma no poder de um homem divino e evolucionário. Mas a Cruz me mostrou algo real a respeito do homem. Na verdade o homem é apenas um vaso de barro, criado, pequeno, humilde, que possui teleologia sim, mas a teleologia (propósito) de Deus, ele é fraco, limitado, precário, pobre, cego, nu e acima de tudo, pecador, um maldito diante da santidade de Deus. Quase tropecei na cruz, mas o Espírito Santo, meu guia, meu selo e meu penhor, não permitiu, trouxe-me de volta para a luz, a sua palavra pura, santa e infalível.

Por isso, aprendi que o foco da minha vida deve ser o poder transcendente de Deus que a tudo excede (2 Cor. 4.7). O Espírito do Senhor tem me ensinado que o foco principal é o amor de Deus, mais que isso, a Sua Graça, que é amor dado a quem não merece e a Sua ira, fruto da santidade do Senhor, enfim, todos os atributos do Senhor e não os atributos do homem. Por que devemos nos extasiar com os atributos do Senhor?  Porque eles não vêm do homem e, apesar disso, eles são reais, foram manifestos pela história! São os atributos de Deus que movem a história e toda a humanidade! Mas como é difícil ter essa compreensão! Na verdade essa é a dificuldade de toda a humanidade, pois a Deus eu não posso ver, nem tocar, e às vezes nem sentir! A tendência é sempre ver Deus dentro do homem, o perigo está em sintetizar os dois para criar um homem-deus, por isso o caminho mais fácil é sempre o panteísmo. Deus, na verdade, é Altíssimo, não que Ele esteja apenas lá no alto, mas que Ele é transcendente ao homem, sua essência permanece fora do homem. Parece tão óbvio, mas o mundo hoje não crê nisso, apenas a igreja cristã reformada e seus herdeiros. Quer ver por que digo isto? Os católicos, p.ex., ao atribuir a divindade a Maria e aos apóstolos não estão porventura fazendo aquela síntese panteísta e afirmando, assim, que Deus não é o Altíssimo, mas sim aquele que está completamente imanente em Maria e nos apóstolos, confundindo assim Deus e os homens? E os neopentecostais, quando atribuem poder divino à palavra do homem para que este tenha o poder de adquirir coisas e riquezas? Isto também não é uma forma de panteísmo? E o que dizer dos budistas, dos hindus, dos espíritas, dos tribais que afirmam a imanência completa de Deus na criação e nos homens? O que dizer dos cientistas modernos que se acham donos da verdade, fazendo-se deuses? Por isso, apenas a igreja invisível de Deus pode declarar em sua adoração: “Santo, Santo, santo é o Senhor!” hoje em dia, somente esta igreja pode cantar assim, porque a maioria já não crê que Deus é todo Santo, separado da criação, o Altíssimo e o Sublime. Esse risco não quero correr. Stott me reabriu os olhos em relação a isso. Ele diz que “quando pensarmos no Deus grande e vivente, é melhor olharmos para cima do que para baixo, e para fora do que para dentro de nós mesmos” (p. 98).

Se eu continuasse me centralizando nos poderes e dons humanos, mesmo reconhecendo sua procedência divina, poderia cair num abismo sem volta, a saber, de supervalorizar o homem e desconsiderar a gravidade do pecado. John Stott me lembrou bem a respeito da gravidade do pecado como podemos ver abaixo:


Cada pecado é uma quebra do que Jesus chamou de o primeiro e grande mandamento, não apenas o fracasso de amar a Deus com todo o nosso ser, mas também a recusa ativa de reconhecê-lo e obedecer-lhe como o nosso Criador e Senhor. Rejeitamos a posição de dependência que o fato de sermos criados envolve, e procuramos ser independentes. Pior ainda, ousamos proclamar nossa auto independência, nossa autonomia, o mesmo que reivindicar a posição que somente Deus pode ocupar. O pecado não é um lapso lamentável de padrões convencionais; a sua essência é a hostilidade para com Deus (Rm. 8.7), manifesta em rebeldia ativa contra Ele. Ele tem sido descrito em termos de “livrar-se do Senhor Deus” a fim de colocarmos a nós mesmo em seu lugar, num espírito altivo de “poderosidade divina”. Emil Brunner resume esse pensamento muito bem, ao dizer: ‘Pecado é desafio, arrogância, desejo de ser igual a Deus... Asserção da independência humana contra Deus... Constituição da razão autônoma, moralidade e cultura’. É com muita razão que ele intitulou o livro do qual tiramos essa citação ‘Homem em Revolta’ (Stott, p. 80).



Por isso, por mais que minha intenção fosse genuína de querer ver o poder de Deus naquilo que o homem é, correria sempre o perigo de tropeçar para cair num humanismo filosófico. O tesouro que Paulo se refere em 2 Corintios 4.7 não é a alma do homem, esta tão corrompida e má, mas sim o conhecimento da glória de Deus na face de Cristo. É a semente de Deus, Sua palavra que é eterna. É este o verdadeiro tesouro, pois é através deste tesouro que o mundo foi criado! O mundo passará, mas a sua palavra é eterna. Meu Deus! Como Tu És glorioso! O homem é completamente pecador! O seu pecado ofende completamente o Espírito de Deus! O pecado não é apenas um desvio de padrões convencionais, mas uma hostilidade contra a Pessoa triuna de Deus! Qualquer pecado faz do homem o seu próprio deus. Quanta humilhação o Espírito de Deus não tem de passar porque habita comumente no ser humano depravado! O pecado reina hoje, e, no entanto ele não é nem reconhecido nem tratado, e Deus continua revelando Sua paciência santa para que seus escolhidos sejam tocados no tempo determinado. É o pecado que nos separa de Deus! Definitivamente o maior tesouro do homem não é sua alma tão corrompida pelo pecado (Marcos 7.21-23). O maior tesouro que podemos ter é o Espírito Santo de Cristo e Sua palavra. Ora se temos a semente divina em nossos corações, não morreremos, não passaremos pela corrupção como acontecerá com o mundo, pois este um dia passará, mas a palavra de Deus nunca passará e a semente que há em nossos corações é a palavra eterna de Deus, a semente da vida (1 Pe. 23-25). O tesouro mais valioso não é a alma do homem, mas a Palavra de Deus, transmitida à alma pelo Santo Espírito que habita no homem regenerado, que visa glorificar o Filho da eternidade, Jesus Cristo, o único Deus-homem, digno de adoração.


A palavra de Deus glorifica a Jesus Cristo de Nazaré! Se há um ser humano que podemos dar-lhe toda a glória, é Jesus! Seu Ser, onipotente, onipresente, eterno, onisciente e ao mesmo tempo homem perene, é incrível e fascinante! Ele é o nosso maior tesouro! Somente Cristo tem a natureza cem por cento divina e cem por cento humana, ninguém mais.   Cristo habita em mim? Sim, mas Ele é transcendente a mim, está lá à direita do trono. Ele habita em mim não porque sou digno, mas por que seu amor quer me salvar do meu pecado hostil. Ele habita em mim para poder abrir meus olhos para sua palavra, a semente incorruptível de Deus, para eu conhecer sua glória divina. Cristo habita no homem redimido, mas este homem redimido não é um deus. Somos criaturas divinas sim (Jo. 10.34-35, 2 Pe. 1.4), pois temos o Espírito de Deus, mas continuamos a ser tão somente criaturas, não somos criadores, eternos, onipotentes, oniscientes, onipresentes! Acho que é esse o mistério oculto de todos os séculos e gerações que Paulo se referia, pois foi a partir de Cristo que a humanidade pagã pôde conhecer a transcendência da pessoa de Deus, ou seja, como que embora Deus habite com seu Espírito no homem redimido, ele continua sendo um Deus pessoal, totalmente transcendente ao homem, Ele é o criador, é o Pai de seus filhos adotivos, e nós somos as criaturas e filhos redimidos que recebem a presença do Pai em nós mesmos por intermédio da pessoa e da obra de Cristo na cruz. Daí, é pela fé conhecedora que entro em comunhão com o Pai, pela fé dada por Cristo.


Não posso perder meu tempo buscando termos humanos para conhecer a Deus, mas pela fé, crendo nas escrituras, palavra revela do Senhor, vou buscar o maior tesouro que posso ter: o conhecimento da glória de Deus na face de Cristo (2 Cor. 4.6). A vontade de Deus e a sua palavra devem me guiar aqui e na eternidade, não a sabedoria dos homens. Confesso que às vezes me pego numa batalha mental por causa das qualidades humanas, visto que ora somos tidos como criaturas divinas, dignas, o que realmente somos, ora como criaturas malditas, indignas pelo pecado, o que realmente somos também. Mas até essa fixação que eu tenho pelo pecado e pela (in)dignidade do homem perante Deus é sadia. John Stott me conforta neste aspecto quando diz o seguinte:



Um reconhecimento completo da responsabilidade humana e, portanto, da culpa, longe de diminuir a dignidade dos seres humanos, na realidade a aumenta. Pressupõe que os homens, diferentes dos animais, são seres moralmente responsáveis, que sabem o que são, podiam ser e deviam ser, e não se desculpam por sua medíocre performance... Pecado não somente é a tentativa de sermos Deus, mas também a recusa de sermos homem, afastando, assim, a responsabilidade de nossas ações.

A Bíblia leva o pecado a sério porque leva o homem a sério... Faz parte da glória do ser humano o fato de sermos responsáveis por nossas ações. Então, quando reconhecemos nosso pecado e culpa, recebemos o perdão de Deus, entramos na alegria da sua salvação, e, assim, nos tornamos ainda mais completamente humanos e saudáveis. Doentio é o espojar-se na culpa que não leva à confissão, ao arrependimento, à fé em Jesus Cristo e ao perdão. (Stott, p.91).




Às vezes quando me ponho a contemplar a essência do homem, seu espírito, como que sua existência pôde existir (que incrível!), fico impressionado. Impressiono-me também com a potencialidade humana por causa de sua dignidade, mas na maioria das vezes fico mais impressionado é com o amor daquele que está assentado no trono, que é o bem mais valioso, e lembro automaticamente da hostil pecaminosidade e corrupção humana, a prova maior sou eu mesmo, pois não adoro a Deus como deveria, mas prefiro a idolatria egocêntrica. Assim, Não é porque sou uma criatura divina que sou digno do amor de Deus, mas sim porque Deus é amor, Ele me ama e me criou por Seu amor, por isso sim, ele me despensa Seu terno amor! Antes que eu existisse, Seu amor é eterno. Fui criado por Seu amor, e mesmo assim resolvi tomar o lugar de Deus e me auto-outorgar deus através do meu pecar. Inequivocamente o pecado me leva a auto idolatria. Qualquer pecado. Tanta é a gravidade do pecado frente à gloriosa majestade do Altíssimo! Como sou maldito! Não quero saber de mim, mas quero conhecer meu Criador que me regenerou e me fez bendito em Seu Cristo, este que com todo o Seu ser e sua alma levou a minha maldição tornando sua própria alma pecaminosa, adúltera, podre e corrompida, sofrendo ele mesmo a depressão, a angústia, as trevas e o abismo existencial da minha alma maldita (meu Senhor!), minha consciência culpada ele carregou consigo, por isso Ele experimentou a terrível separação de Seu Pai, coisa que nunca lhe havia acontecido. A dor física na crucificação era o de menos, ele mesmo havia ensinado a seus discípulos que deveriam sofrer e morrer com alegria no coração, então por que o Senhor suou gotas de sangue na agonia preconizante do jardim? Porque foi a Sua alma dilacerada, moída, tornada em trevas, o que mais o fez sofrer e ter medo da cruz, visto que ele é eternamente luz. Jesus, sendo eterno Deus, Santo, Santo, Santo, imutável, com olhos puros demais para contemplar o pecado, Ele mesmo se tornou pecado diante de Deus o Pai, para que eu me tornasse justiça de Deus – agora entendo o grito de desamparo na cruz e entendo também por que o sol não quis brilhar durante três horas (a própria luz do mundo, Jesus Cristo, teve de experimentar as trevas), o Pai estava finalmente separado do Filho por causa do meu pecado. Mas na verdade, não foi meu pecado que em última instância que levou meu Jesus a cruz. Até aqui temos a tendência de centralizar o poder do homem. É preciso compreender primeiramente a ira majestosa de Deus, fruto da Sua santidade. Deus é Altíssimo, está longe do pecador. Deus é luz inacessível que nenhum homem pode ver, Deus é fogo consumidor, horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo. Deus vomita o pecador, pois sente náuseas do mal. É preciso conhecer o poder da majestade da ira do Altíssimo para compreendermos a cruz, pois “somente aquele que conhece a grandeza da ira será dominado pela grandeza da misericórdia” (p. 99). De forma que o perdão é o problema mais profundo de Deus. Ao mesmo tempo em que Ele se ira em Sua santidade, Ele também ama o pecador. Para o homem o pecado não tem tanta importância, mas para Deus é um problema quase que irresolvível, pois Ele precisa satisfazer Sua eterna santidade que se manifesta em ira.


O único digno de receber louvor e adoração é o Senhor e Salvador Jesus Cristo, fascinante em Sua Glória! Frente a esta verdade, não posso me ater a filosofias humanas, pois nada são, mas tão somente a palavra das escrituras divinamente inspiradas, que é lâmpada para os meus pés e luz para os meus caminhos. Para muitos crentes isto pode ser tão óbvio, mas para mim, que desde quando entrei num mestrado de teologia onde se menosprezava a palavra de Deus, tudo se tornou difícil, como esse simples retorno às escrituras, mas glória ao meu Deus altíssimo, que me trouxe de volta pra casa, me fez atravessar de volta o abismo tão perigoso da sutileza que há entre a teologia liberal (propagada na maioria das faculdades teológicas de hoje) e a filosofia. Como me sinto em paz e descansado agora. O Senhor é a minha âncora, voltei para meu porto seguro. Enfim, entre confiar no homem e confiar em Deus e na Sua palavra, prefiro a melhor opção.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

Compreendendo a cruz de Cristo


               Comecei a reler o livro intitulado “A Cruz de Cristo” de John Stott, e a minha alma começou a queimar por dentro com esta indagação: por que a cruz de Cristo é escândalo para os ‘sábios’, mas é sabedoria de Deus para os que confiam no Seu poder?

               “Quanto mais os incrédulos negarem seu caráter crucial, tanto mais os crentes encontrarão nela a chave para os mistérios do pecado e sofrimento” (p. 34, A Cruz de Cristo, John Stott). Que citação Incrível! Que sabedoria inefável de Deus! Quanto mais o mundo nega a cruz e o pecado, mas os cristãos passam a vislumbrar a essência da vida, do pecado e da própria cruz! Isso só pode ser coisa de Deus, é pura revelação! O homem não pode criar uma história assim, pois ele mesmo a nega.


               Durante toda a história existiram, existem e existirão duas formas de se encarar a vida, como podemos ver no esquema abaixo:

(1) A concepção da pessoalidade de Deus que desencadeia na seguinte verdade:

(a) O homem é um ser espiritual criado (ex. dos assim creem: os cristãos, a sociedade científica teleológica do design inteligente, os judeus, estes que apesar de terem conhecido Javé, rejeitaram sua salvação pelo Seu Filho); 

(2) A concepção da impessoalidade de um deus, sendo que esta se desdobra em dois ramos: 

(a) a concepção de que essa energia (um tipo de deus) impessoal e imanente na natureza e no homem leva este último a uma evolução espiritual junto à deusa natureza (os budistas, os hindus, os espíritas, os mulçumanos, as sociedades primitivas, os filósofos hegelianos-românticos, os filósofos contemporâneos  e pós-modernos, os existencialistas ateus. Estes todos são os panteístas); 

(b) a concepção de que essa energia (um tipo de deus) impessoal e imanente na natureza e no homem leva este último a uma evolução completamente natural, ou seja, o próprio homem é autossuficiente, autônomo, evoluído por seus próprios esforços e “por ter vencido a deusa natureza”, ele se sente deus de si mesmo (a sociedade científica naturalista, os ascetas e a sociedade civil histórica – aquela que não aceita a teleologia do Criador, ou seja, o propósito divino claramente impresso na criação. Estes todos são os panteístas-naturalistas).

É somente quando se trata o homem como um ser criado a imagem de um Deus pessoal é que a cruz de Cristo passa a fazer sentido. Na aparência, na sua existência, ela (a cruz) é loucura, escândalo, mas na sua essência, ela é revelação da sabedoria, da graça, do amor e da justiça de Deus. Ela rasgou o véu da história, ela é a chave da história, ela é a principal prova de que Jesus Cristo é o próprio Filho de Deus, por isso Ele disse no momento imediatamente anterior a da sua crucificação: 


Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que também o Filho te glorifique; assim como lhe deste autoridade sobre toda a carne, para que dê a vida eterna a todos aqueles que lhe tens dado. E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que tu enviaste. Eu te glorifiquei na terra, completando a obra que me deste para fazer. Agora, pois, glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse (Jo. 17.1-5).

Como pode ser? A cruz um momento de glorificação? A cruz talvez tenha sido o instrumento de tortura e morte mais terrível que já existiu, destinado para os malditos. Mas Jesus sabia que a hora da crucificação e morte era a Sua própria glorificação. Meu Deus, que mistério é esse? 


Não há ruptura maior entre a fé e a descrença do que as atitudes respectivas deles para com a cruz. Onde a fé vê a glória, a descrença vê apenas desgraça. O que era loucura para os gregos, e continua sendo para os intelectuais modernos que confiam em sua própria sabedoria, é, contudo a sabedoria de Deus. E o que permanece como pedra de tropeço para os que confiam em sua própria justiça, como os judeus do primeiro século, prova ser o poder salvador de Deus (p. 33, Stott).

Os que vivem de aparência e de existência egoísta se escandalizam com a cruz, pois a aparência existencialista depende do pensamento evolutivo para se fundar. É a evolução o motor do homem natural. Este consegue confiar em si próprio porque pensa ser um animal evoluído, fora de série, que chegou ao topo por seus próprios méritos. Daí o negar o criador, pois ele (o homem) pensa ser autônomo e autossuficiente. Ele pensa não possuir um espírito, mas uma consciência evoluída, civilizada, educada, trata-se do próprio super-homem idealizado por Nietzsche. Este filósofo, inclusive, nunca aceitou o cristianismo por se tratar de uma religião da misericórdia, do oprimido, do fraco e abatido, visto que isto contradiz a teoria da evolução, do mais forte, do mais capaz. Quantos hoje não pensam dessa forma? A maioria crê nessa enganação, principalmente os cidadãos dos países desenvolvidos. Por isso mesmo a cruz de Cristo é uma pedra de tropeço, pois onde está aparentemente a fraqueza, Deus revela seu poder para salvar os perdidos que foram desde a eternidade eleitos por seu amor indizível. Todo aquele que contempla e cruz e vê ali um sinal de decadência é porque o Espírito Santo não habita nele, trata-se de um morto-vivo, um animal que confia na sua própria evolução, dentre tantos posso dizer do moralista que pensa que por sua própria justiça fundada na sua “consciência evoluída” o fará salvo, mesmo não crendo na glória de Deus na face de Cristo (2 Cor. 4.6). Este pensa que sua moral é elevada por ser um homem superior e evoluído, nem passa por sua mente ser essa moral um resquício da imagem de Deus em seu ser, é a própria presença graciosa e comum de Deus nele como em todos os homens (Gn. 6.3), o moralista não pode perceber que ele vive tão somente por causa da misericórdia do Altíssimo, por isso ele não crê no Filho e em Sua glória. Mas todo aquele que vê a glória do Filho unigênito de Deus na cruz, já recebeu o Espírito glorioso de Deus, foi regenerado, sua pessoalidade humana foi restaurada (apenas os espirituais são completamente pessoais), pode enfim se relacionar como pessoa santa com a Pessoa do Criador  três vezes santa. 

Quer ver por que eu digo que apenas os espirituais são verdadeiramente pessoas? Tomo o exemplo do casamento criado por Deus. Quando o esposo abre asas para suas paixões carnais e passa a adulterar, ele deixa de ser uma pessoa propriamente dita, para se tornar um animal impessoal, totalmente imanente na natureza (nas mulheres – que são feitas de barro), pois perdeu a capacidade de se relacionar com a pessoa de sua esposa, deixou de liberar, assim, amor para a pessoa do seu cônjuge. A marca da pessoalidade é exatamente o relacionamento de amor verdadeiro. Quando damos vazão para o pecado nos tornamos seres impessoais, animais mesmos, perdemos as bênçãos de Deus que em nós habitavam e começamos a andar em direção à impessoalidade, ou seja, ao despropósito, ao caos, à deterioração e enfim, morremos literalmente, nosso ser se torna completamente impessoal ao se voltar para o barro da natureza, nos tornamos completamente imanentes, românticos  e o espírito maldito vai para o inferno da inexistência de graça e bênçãos da pessoa divina. Não quero isso para mim, quero viver, ser parecido com meu Criador, quero vê-lo face a face, quero me relacionar com ele, não quero ser impessoal, romântico, traindo minha esposa, correndo como um cão atrás das paixões da carne e do coração tão pecador e enganoso! (Senhor, me livra do mal!) Quero ser santo! Acaso não é por causa da santidade que somos pessoas? Pois é. Temos essa casa de barro repleta de desenhos inteligentes e de uma teleologia (propósito divino) incrível tão somente porque habita um espírito em nós! Não fosse esse espírito, ainda seríamos pó! Somos transcendentes (separados) do barro da natureza por causa desse espírito! Ao passo que se nos entregamos ao pecado, essa casa de barro começa a se desfazer para voltar ao pó e se tornar completamente imanente com a natureza. É a santidade que nos faz ser vivos e sermos pessoas, sem ela estamos mortos! É por isso que o Senhor tanto nos exorta para uma vida em santidade, não é por menos, é para o nosso bem, para sermos pessoas completas, para termos vida em abundância e não perdermos o Seu Espírito. Por tanto, eu quero amar minha esposa com o amor dado por Deus, um amor santo, separado, aquele amor que tanto valoriza  a pessoa da minha esposa. Ora se o amor que tenho não valorizar e abençoar a pessoa da minha esposa, esse amor não pode emanar de Deus, pois a Sua palavra afirma que Deus criou o homem, homem e mulher os criou, e os dois serão uma só carne, o homem, pois, amará a sua mulher, assim como Cristo amou a sua Igreja, e mais, Deus disse que odeia o divórcio (Gn. 1.27, I Cor. 6.16, Ef. 5.25, Ml. 2.16). Portanto, o amor santo que vem de Deus, aquele que vai me trazer bênçãos, vai me tornar uma pessoa digna de se relacionar com a pessoa do próprio Criador três vezes santo, é o amor de marido e mulher, não o “amor” de adúltero, nem o de homossexual, pois o Senhor assim o disse. Tenho sempre falado a respeito do romantismo. No entanto esse romantismo a que me refiro é o em sentido latu. Na verdade não podemos ser românticos em sentido latu, pois esse romantismo crê que o amor é um deus impessoal e não um atributo pessoal de Deus. Devemos sim ser amantes de nossos cônjuges. No fim das contas o romantismo do senso comum é aquele que praticamos com nossos cônjuges quando somos verdadeiros amantes e confiantes de que Deus é a razão do amor. É o romantismo filosófico que ataco e não o do senso comum.

Enfim, O que há de tão precioso na cruz? Ela é a resposta para o que nós os seres humanos somos. Ela diz tudo sobre nós, ela revela quem nós somos. A mensagem da cruz revela isto: olha vocês são seres espirituais. Vocês tem um espírito ai dentro, o tesouro de vocês (Lc. 6.45)! Mas por causa do pecado, esse espírito foi transgredido, ficou manchado, como uma obra-prima deteriorada. Outra coisa: Somente os homens espirituais são realmente pessoais! O fruto do espírito não pode ser compartilhado por animais ou objetos inanimados! Somente pessoas podem compartilhar o fruto do espírito, Deus é pessoal e esse Espírito que vem dele, o Espírito Santo, também é uma pessoa! Porque vocês acham que quando uma pessoa se joga no lamaçal do pecado, ela deixa de ser pessoa e passa a se tornar um animal irracional? Porque é isso que o pecado faz! Ele deteriora a sua pessoalidade, seu espírito e o torna num ser impessoal, num animal. É por isso que Deus, o Criador, se ira tanto com o pecado, pois é a imagem dEle em vocês que está em jogo. Então por que foi necessária a cruz? Porque vocês são seres espirituais! São joias do Senhor (Lc.15.8-10), criações dEle, suas obras-primas, mais importantes que o sol e as estrelas do céu (Sl. 8)! Se vocês fossem realmente naturais como dizem os “sábios” ascetas, o Senhor não se encarnaria para morrer numa cruz em seus lugares. É por isso que os sábios deste mundo se escandalizam! Estes que pensam ser naturais e evoluídos, e por isso mesmo se tornam superficiais, veem a cruz superficialmente e a tratam superficialmente, não podem atinar que ela traz a própria sabedoria e a revelação do Senhor! O mundo não entende que o amor é um fruto do Espírito! Eles pensam que é uma energia impessoal, uma força universal que muitos chamam até de Brahma! Que loucura! Que falta de sabedoria! Os cientistas também não conseguem explicar o amor. O amor não é um deus! Deus é amor! O amor só pode ser compartilhado por pessoas, mas os humanos não são a razão do amor, visto que são criaturas essencialmente decompostas e impessoais por causa do pecado. Deus é a razão do amor, Deus é uma pessoa que se relaciona! Todo espírito é uma pessoa! Todos são pessoas, vocês, humanos, também são pessoas por possuírem um espírito! O animais não são pessoas, pois não possuem um espírito! Por isso foi necessário a cruz, para revelar de uma vez por todas a pessoalidade do Criador (o Senhor Jesus Cristo) e para julgar os pecados que tanto causaram ira à santidade do Criador cujo Espírito sempre esteve graciosamente em vocês, ora como Ele é uma pessoa três vezes santa, Ele se indignou contra vocês, assim como vocês se iram quando alguém peca contra vocês, pois vocês são pessoas! Mas Ele é Santo, Santo, Santo! É justo! É imutável! (Ml. 3.6) Não poderia deixar o pecado impune! Pecado este que tanto destruiu Sua imagem em vocês! 

A mensagem da cruz revela mais isto: Deus é uma pessoa e vocês são seres espirituais que necessitam nascer de novo. É justamente por isso que a cruz é a chave e o centro da história, porque ela revela quem é o autor de toda a história e revela também quem são vocês, não é isto que vocês sempre quiseram saber desde que foram criados? Conhecer o Criador e saber de onde vocês vieram? Esta não é a razão de todas as guerras e revoluções de vocês? Por causa da busca por esse tesouro espiritual que vocês nunca puderam encontrar, vocês então se lançaram na busca pelos ouros e pratas, pelas riquezas deste mundo, muitos até morreram tentando encontrar riquezas em terras que nunca existiram, terras distantes, pensando que isto tudo pudesse preencher o vazio que só Deus poderia preencher. Daí, nesta cobiça desenfreada por riquezas que pudessem preencher a alma, vocês fabricaram guerras e revoluções. Nisto se resume toda a história humana sobre a face da terra, mas a cruz finalmente rasgou para vocês o véu da história e revelou que o tesouro verdadeiro é Cristo e este crucificado. O tesouro verdadeiro foi revelado: o Senhor é uma pessoa que tem um relacionamento eterno com Seu Filho querido e com Seu Espírito Santo, e vocês são seres espirituais criados a imagem de Deus que necessitam de regeneração para a eterna redenção (Hb. 9), para o gozo inexprimível ao qual vocês foram criados. Creiam no Filho unigênito de Deus que está em Seu seio (Jo. 1.18) e vocês viveram, pois foi Jesus quem revelou o Pai, e agora o Espírito Santo quer revelar a glória de Cristo Jesus em seus espíritos! 


O mistério que esteve oculto dos séculos, e das gerações; mas agora foi manifesto aos seus santos, a quem Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, a esperança da glória (Col. 1. 26-27).

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Deus e o individuo



               Estava acompanhando pelo noticiário a terrível guerra civil na Síria e como que a comunidade internacional tem procurado coagir o governo sírio para promover a paz naquela região até que lembrei dos ensinos de Norberto Bobbio (1909-2004, foi um filósofo político, historiador do pensamento político e senador vitalício italiano) que dizia que a tão sonhada paz mundial pregada por Immanuel Kant (1724-1804) era inevitável e para isso o mundo iria precisar de um governo unificado com leis internacionais com poder de sanção e coação sobre todos os governos para que todo indivíduo tenha sua cidadania global tutelada e para que os direitos humanos de todos fossem respeitados.

               A sociedade moderna pregou tanto a valorização do individuo, como se as sociedades anteriores não se preocupassem com isto. Por que uma sociedade moderna que se preocupa tanto com o direito do individuo tende a desembocar, segundo Bobbio, na formação de um governo único no futuro?

               A celebração do individuo que trouxe a democracia à tona terá de se valer paradoxalmente de um governo único para garantir a paz universal (tanto pregada por Kant) a fim de que cada indivíduo do mundo tenha seus direitos respeitados em pé de igualdade, de outra forma não dá, apenas assim todos poderão ser cidadãos do mundo.

               Ora esse governo era o que Deus quis com Israel, mas um governo pessoal e interessado em cada individuo (chamei-te pelo nome, tu és meu), não seria necessário revoluções e mais revoluções, mas apenas seguir o governo do próprio Deus. Agora que o homem resolveu seguir seu próprio caminho, descobrirá que sua sede por individualização desembocará num governo que da mesma forma deverá ser universal, será, no entanto um governo civil e histórico, por isso mesmo distante de Deus, pois o que o homem moderno e pós-moderno entende por história como a enganação da não existência de um Deus pessoal. Mas os cristãos sabem muitos bem, já lhes foi revelado que a verdadeira história é aquela que está escrita no rolo do qual os sete selos foram arrancados pelo Cordeiro de Deus, o único digno de tomar este livro e abri-lo, pois ele enfrentou a cruz, morreu e ressuscitou. A cruz é o centro e a chave da história. Nela a sabedoria de Deus é revelada e os sábios deste século são envergonhados. Quando a sociedade histórica civil – a grande Babilônia – vislumbrar o dono da verdadeira história – Cristo, o verbo da criação – será desfeita para sempre e a verdadeira sociedade, a Nova Jerusalém, reinará com Cristo em gozo inefável para sempre. Aleluia!