Eu não mereço o amor de Deus. Por
mais eu seja formado pelo Seu Espírito que comum e graciosamente habita em mim
como também em todos os homens, sejam salvos ou não, esse tesouro que em mim
habita não me qualifica a merecer o amor de Deus, pois deliberadamente eu
sempre busquei o pecado sem pestanejar. Antes de o Espírito Santo me regenerar
e passar a habitar em mim não mais apenas com sua graça comum, mas também com
sua graça salvadora abrindo assim meus olhos para ver a glória de Deus na face
de Cristo, a minha busca pelo pecado era a minha religião, era o que eu amava.
Por isso, por mais que eu diga que todos os homens possuem um tesouro que é a
graça comum do Espírito Santo habitando neles que de forma misteriosa e pelo poder de
Deus essa graça foi transformada num espírito pessoal e humano que se chama
“eu”, estes não possuem dignidade própria, pois são pecadores malditos. Como
isto é terrível: o mesmo homem que vive por que tem o Espírito de Deus
comumente dentro de si é o mesmo que nega seu Criador e ama o pecado. Quanta
humilhação Deus não tem de sofrer em seu Espírito por nós! Ele se humilhou em Seu
Filho na cruz, Ele sempre se humilhou desde adão e continua se humilhando até o
presente quando mesmo um cristão peca! Mas terrível coisa é cair nas mãos do
Deus vivo, quem ainda não caiu é porque está sendo coberto de misericórdia e
graça, mas quando o Senhor resolver se afastar em ira, que terrível fim este
homem terá, pois não soube aproveitar a grande paciência com que o Senhor o
tratou para se arrepender e crer! Toda a glória, honra, força e poder sejam
dadas ao Senhor Jesus, nosso salvador, que com eterno amor nos amou e nos
atraiu e que com sua cruz nos reconciliou com o Pai. Em postagens anteriores
costumei dizer que nossa alma era formada de amor por sermos criados à imagem
de Deus. Mas, se nossa alma fosse formada de amor, eu sempre amaria meus
próximos. No entanto, eu, às vezes, os odeio, tenho inveja. Minha língua é
homicida quase que diariamente, pratico a mesquinharia! Sou miserável e
orgulhoso, quando estou distante de Deus e não estou bem com minha esposa,
pratico o adultério com meus olhos! A palavra de Deus nunca afirmou que nossa
alma é formada de amor, o que eu fiz na verdade foi uma construção filosófica,
prática que adquiri no curso de mestrado em teologia. Na verdade o amor não é o
Espírito, mas um fruto do Espírito (Gl. 5), o Espírito Santo é Deus. Se
fôssemos formados de amor, amaríamos a Deus, mas “não fomos nós que amamos a
Deus, ...foi Ele quem nos amou e enviou Seu Filho como propiciação pelos nossos
pecados” (Jo. 4.10). Não somos dignos desse amor e ainda respiramos por conta
das ternas misericórdias de Deus, senão já estaríamos consumidos por nossos
pecados.
Que grande perigo corri ao tentar
analisar a formação da alma do homem por critérios humanos! Que perigo é esse?
Ao me centralizar na alma humana, poderia me decair a esquecer do poder de Deus
que a tudo excede. O homem certamente é incrível, mas o poder de Deus é mais
incrível ainda! Centralizar-me no tesouro do homem (seu espírito pessoal),
poderia me levar a tornar-me um panteísta evolucionista que se firma no poder de
um homem divino e evolucionário. Mas a Cruz me mostrou algo real a respeito
do homem. Na verdade o homem é apenas um vaso de barro, criado, pequeno,
humilde, que possui teleologia sim, mas a teleologia (propósito) de Deus, ele é
fraco, limitado, precário, pobre, cego, nu e acima de tudo, pecador, um maldito
diante da santidade de Deus. Quase tropecei na cruz, mas o Espírito Santo, meu
guia, meu selo e meu penhor, não permitiu, trouxe-me de volta para a luz, a sua
palavra pura, santa e infalível.
Por isso, aprendi que o foco
da minha vida deve ser o poder transcendente
de Deus que a tudo excede (2 Cor. 4.7). O Espírito do Senhor tem me ensinado
que o foco principal é o amor de Deus, mais que isso, a Sua Graça, que é amor
dado a quem não merece e a Sua ira, fruto da santidade do Senhor, enfim, todos
os atributos do Senhor e não os atributos do homem. Por que devemos nos
extasiar com os atributos do Senhor?
Porque eles não vêm do homem e, apesar disso, eles são reais, foram
manifestos pela história! São os atributos de Deus que movem a história e toda
a humanidade! Mas como é difícil ter essa compreensão! Na verdade essa é a
dificuldade de toda a humanidade, pois a Deus eu não posso ver, nem tocar, e às
vezes nem sentir! A tendência é sempre ver Deus dentro do homem, o perigo está
em sintetizar os dois para criar um homem-deus, por isso o caminho mais fácil é
sempre o panteísmo. Deus, na verdade, é Altíssimo, não que Ele esteja apenas lá
no alto, mas que Ele é transcendente ao homem, sua essência permanece fora do
homem. Parece tão óbvio, mas o mundo hoje não crê nisso, apenas a igreja cristã
reformada e seus herdeiros. Quer ver por que digo isto? Os católicos, p.ex., ao
atribuir a divindade a Maria e aos apóstolos não estão porventura fazendo
aquela síntese panteísta e afirmando, assim, que Deus não é o Altíssimo, mas
sim aquele que está completamente imanente em Maria e nos apóstolos, confundindo assim Deus e os homens? E os
neopentecostais, quando atribuem poder divino à palavra do homem para que este
tenha o poder de adquirir coisas e riquezas? Isto também não é uma forma de
panteísmo? E o que dizer dos budistas, dos hindus, dos espíritas, dos tribais
que afirmam a imanência completa de Deus na criação e nos homens? O que dizer
dos cientistas modernos que se acham donos da verdade, fazendo-se deuses? Por
isso, apenas a igreja invisível de Deus pode declarar em sua adoração: “Santo,
Santo, santo é o Senhor!” hoje em dia, somente esta igreja pode cantar assim,
porque a maioria já não crê que Deus é todo Santo, separado da criação, o Altíssimo
e o Sublime. Esse risco não quero correr. Stott me reabriu os olhos em relação
a isso. Ele diz que “quando pensarmos no Deus grande e vivente, é melhor
olharmos para cima do que para baixo, e para fora do que para dentro de nós
mesmos” (p. 98).
Se eu continuasse me
centralizando nos poderes e dons humanos, mesmo reconhecendo sua procedência
divina, poderia cair num abismo sem volta, a saber, de supervalorizar o homem e
desconsiderar a gravidade do pecado. John Stott me lembrou bem a respeito da
gravidade do pecado como podemos ver abaixo:
Cada pecado é uma quebra do que
Jesus chamou de o primeiro e grande mandamento, não apenas o fracasso de amar a
Deus com todo o nosso ser, mas também a recusa ativa de reconhecê-lo e
obedecer-lhe como o nosso Criador e Senhor. Rejeitamos a posição de dependência
que o fato de sermos criados envolve, e procuramos ser independentes. Pior
ainda, ousamos proclamar nossa auto independência, nossa autonomia, o mesmo que
reivindicar a posição que somente Deus pode ocupar. O pecado não é um lapso
lamentável de padrões convencionais; a sua essência é a hostilidade para com
Deus (Rm. 8.7), manifesta em rebeldia ativa contra Ele. Ele tem sido descrito
em termos de “livrar-se do Senhor Deus” a fim de colocarmos a nós mesmo em seu
lugar, num espírito altivo de “poderosidade divina”. Emil Brunner resume esse
pensamento muito bem, ao dizer: ‘Pecado é desafio, arrogância, desejo de ser
igual a Deus... Asserção da independência humana contra Deus... Constituição da
razão autônoma, moralidade e cultura’. É com muita razão que ele intitulou o
livro do qual tiramos essa citação ‘Homem em Revolta’ (Stott, p. 80).
Por isso, por mais que minha
intenção fosse genuína de querer ver o poder de Deus naquilo que o homem é,
correria sempre o perigo de tropeçar para cair num humanismo filosófico. O
tesouro que Paulo se refere em 2 Corintios 4.7 não é a alma do homem, esta tão corrompida e má, mas sim o conhecimento da glória de Deus na face de
Cristo. É a semente de Deus, Sua palavra que é eterna. É este o verdadeiro
tesouro, pois é através deste tesouro que o mundo foi criado! O mundo passará,
mas a sua palavra é eterna. Meu Deus! Como Tu És glorioso! O homem é
completamente pecador! O seu pecado ofende completamente o Espírito de Deus! O pecado
não é apenas um desvio de padrões convencionais, mas uma hostilidade contra a
Pessoa triuna de Deus! Qualquer pecado faz do homem o seu próprio deus. Quanta
humilhação o Espírito de Deus não tem de passar porque habita comumente no ser humano depravado! O
pecado reina hoje, e, no entanto ele não é nem reconhecido nem tratado, e Deus
continua revelando Sua paciência santa para que seus escolhidos sejam tocados
no tempo determinado. É o pecado que nos separa de Deus! Definitivamente o
maior tesouro do homem não é sua alma tão corrompida pelo pecado (Marcos
7.21-23). O maior tesouro que podemos ter é o Espírito Santo de Cristo e Sua
palavra. Ora se temos a semente divina em nossos corações, não morreremos, não
passaremos pela corrupção como acontecerá com o mundo, pois este um dia
passará, mas a palavra de Deus nunca passará e a semente que há em nossos
corações é a palavra eterna de Deus, a semente da vida (1 Pe. 23-25). O tesouro
mais valioso não é a alma do homem, mas a Palavra de Deus, transmitida à
alma pelo Santo Espírito que habita no homem regenerado, que visa glorificar o
Filho da eternidade, Jesus Cristo, o único Deus-homem, digno de adoração.
A palavra de Deus glorifica a
Jesus Cristo de Nazaré! Se há um ser humano que podemos dar-lhe toda a glória,
é Jesus! Seu Ser, onipotente, onipresente, eterno, onisciente e ao mesmo tempo
homem perene, é incrível e fascinante! Ele é o nosso maior tesouro! Somente
Cristo tem a natureza cem por cento divina e cem por cento humana, ninguém mais.
Cristo habita em mim? Sim, mas Ele é
transcendente a mim, está lá à direita do trono. Ele habita em mim não porque
sou digno, mas por que seu amor quer me salvar do meu pecado hostil. Ele habita
em mim para poder abrir meus olhos para sua palavra, a semente incorruptível de
Deus, para eu conhecer sua glória divina. Cristo habita no homem redimido, mas
este homem redimido não é um deus. Somos criaturas divinas sim (Jo. 10.34-35, 2
Pe. 1.4), pois temos o Espírito de Deus, mas continuamos a ser tão somente
criaturas, não somos criadores, eternos, onipotentes, oniscientes,
onipresentes! Acho que é esse o mistério oculto de todos os séculos e gerações
que Paulo se referia, pois foi a partir de Cristo que a humanidade pagã pôde conhecer
a transcendência da pessoa de Deus, ou seja, como que embora Deus habite com
seu Espírito no homem redimido, ele continua sendo um Deus pessoal, totalmente
transcendente ao homem, Ele é o criador, é o Pai de seus filhos adotivos, e nós
somos as criaturas e filhos redimidos que recebem a presença do Pai em nós
mesmos por intermédio da pessoa e da obra de Cristo na cruz. Daí, é pela fé
conhecedora que entro em comunhão com o Pai, pela fé dada por Cristo.
Não posso perder meu tempo
buscando termos humanos para conhecer a Deus, mas pela fé, crendo nas
escrituras, palavra revela do Senhor, vou buscar o maior tesouro que posso ter:
o conhecimento da glória de Deus na face de Cristo (2 Cor. 4.6). A
vontade de Deus e a sua palavra devem me guiar aqui e na eternidade, não a
sabedoria dos homens. Confesso que às vezes me pego numa batalha mental por
causa das qualidades humanas, visto que ora somos tidos como criaturas divinas,
dignas, o que realmente somos, ora como criaturas malditas, indignas pelo
pecado, o que realmente somos também. Mas até essa fixação que eu tenho pelo
pecado e pela (in)dignidade do homem perante Deus é sadia. John Stott me
conforta neste aspecto quando diz o seguinte:
Um reconhecimento completo da
responsabilidade humana e, portanto, da culpa, longe de diminuir a dignidade
dos seres humanos, na realidade a aumenta. Pressupõe que os homens, diferentes
dos animais, são seres moralmente responsáveis, que sabem o que são, podiam ser
e deviam ser, e não se desculpam por sua medíocre performance... Pecado não
somente é a tentativa de sermos Deus, mas também a recusa de sermos homem,
afastando, assim, a responsabilidade de nossas ações.
A Bíblia leva o pecado a
sério porque leva o homem a sério... Faz
parte da glória do ser humano o fato de sermos responsáveis por nossas ações. Então,
quando reconhecemos nosso pecado e culpa, recebemos o perdão de Deus, entramos
na alegria da sua salvação, e, assim, nos tornamos ainda mais completamente
humanos e saudáveis. Doentio é o espojar-se na culpa que não leva à confissão,
ao arrependimento, à fé em Jesus Cristo e ao perdão. (Stott, p.91).
Às vezes quando me ponho a
contemplar a essência do homem, seu espírito, como que sua existência pôde
existir (que incrível!), fico impressionado. Impressiono-me também com a
potencialidade humana por causa de sua dignidade, mas na maioria das vezes fico
mais impressionado é com o amor daquele que está assentado no trono, que é o bem
mais valioso, e lembro automaticamente da hostil pecaminosidade e corrupção
humana, a prova maior sou eu mesmo, pois não adoro a Deus como deveria, mas prefiro
a idolatria egocêntrica. Assim, Não é porque sou uma criatura divina que sou
digno do amor de Deus, mas sim porque Deus é amor, Ele me ama e me criou por
Seu amor, por isso sim, ele me despensa Seu terno amor! Antes que eu existisse,
Seu amor é eterno. Fui criado por Seu amor, e mesmo assim resolvi tomar o lugar
de Deus e me auto-outorgar deus através do meu pecar. Inequivocamente o pecado
me leva a auto idolatria. Qualquer pecado. Tanta é a gravidade do pecado frente
à gloriosa majestade do Altíssimo! Como sou maldito! Não quero saber de mim,
mas quero conhecer meu Criador que me regenerou e me fez bendito em Seu Cristo,
este que com todo o Seu ser e sua alma levou a minha maldição tornando sua
própria alma pecaminosa, adúltera, podre e corrompida, sofrendo ele mesmo a
depressão, a angústia, as trevas e o abismo existencial da minha alma maldita (meu
Senhor!), minha consciência culpada ele carregou consigo, por isso Ele
experimentou a terrível separação de Seu Pai, coisa que nunca lhe havia
acontecido. A dor física na crucificação era o de menos, ele mesmo havia
ensinado a seus discípulos que deveriam sofrer e morrer com alegria no coração,
então por que o Senhor suou gotas de sangue na agonia preconizante do jardim?
Porque foi a Sua alma dilacerada, moída, tornada em trevas, o que mais o fez
sofrer e ter medo da cruz, visto que ele é eternamente luz. Jesus, sendo eterno
Deus, Santo, Santo, Santo, imutável, com olhos puros demais para contemplar o
pecado, Ele mesmo se tornou pecado diante de Deus o Pai, para que eu me
tornasse justiça de Deus – agora entendo o grito de desamparo na cruz e entendo
também por que o sol não quis brilhar durante três horas (a própria luz do
mundo, Jesus Cristo, teve de experimentar as trevas), o Pai estava finalmente
separado do Filho por causa do meu pecado. Mas na verdade, não foi meu pecado
que em última instância que levou meu Jesus a cruz. Até aqui temos a tendência
de centralizar o poder do homem. É preciso compreender primeiramente a ira
majestosa de Deus, fruto da Sua santidade. Deus é Altíssimo, está longe do
pecador. Deus é luz inacessível que nenhum homem pode ver, Deus é fogo
consumidor, horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo. Deus vomita o pecador,
pois sente náuseas do mal. É preciso conhecer o poder da majestade da ira do
Altíssimo para compreendermos a cruz, pois “somente aquele que conhece a
grandeza da ira será dominado pela grandeza da misericórdia” (p. 99). De forma
que o perdão é o problema mais profundo de Deus. Ao mesmo tempo em que Ele se
ira em Sua santidade, Ele também ama o pecador. Para o homem o pecado não tem
tanta importância, mas para Deus é um problema quase que irresolvível, pois Ele
precisa satisfazer Sua eterna santidade que se manifesta em ira.
O único digno de receber louvor e
adoração é o Senhor e Salvador Jesus Cristo, fascinante em Sua Glória! Frente a
esta verdade, não posso me ater a filosofias humanas, pois nada são, mas tão
somente a palavra das escrituras divinamente inspiradas, que é lâmpada para os
meus pés e luz para os meus caminhos. Para muitos crentes isto pode ser tão
óbvio, mas para mim, que desde quando entrei num mestrado de teologia onde se menosprezava
a palavra de Deus, tudo se tornou difícil, como esse simples retorno às
escrituras, mas glória ao meu Deus altíssimo, que me trouxe de volta pra casa, me
fez atravessar de volta o abismo tão perigoso da sutileza que há entre a
teologia liberal (propagada na maioria das faculdades teológicas de hoje) e a
filosofia. Como me sinto em paz e descansado agora. O Senhor é a minha âncora, voltei
para meu porto seguro. Enfim, entre confiar no homem e confiar em Deus e na Sua
palavra, prefiro a melhor opção.
Nenhum comentário:
Postar um comentário