segunda-feira, 18 de junho de 2012

Não mereço o amor de Deus!


Eu não mereço o amor de Deus. Por mais eu seja formado pelo Seu Espírito que comum e graciosamente habita em mim como também em todos os homens, sejam salvos ou não, esse tesouro que em mim habita não me qualifica a merecer o amor de Deus, pois deliberadamente eu sempre busquei o pecado sem pestanejar. Antes de o Espírito Santo me regenerar e passar a habitar em mim não mais apenas com sua graça comum, mas também com sua graça salvadora abrindo assim meus olhos para ver a glória de Deus na face de Cristo, a minha busca pelo pecado era a minha religião, era o que eu amava. Por isso, por mais que eu diga que todos os homens possuem um tesouro que é a graça comum do Espírito Santo habitando neles que de forma misteriosa e pelo poder de Deus essa graça foi transformada num espírito pessoal e humano que se chama “eu”, estes não possuem dignidade própria, pois são pecadores malditos. Como isto é terrível: o mesmo homem que vive por que tem o Espírito de Deus comumente dentro de si é o mesmo que nega seu Criador e ama o pecado. Quanta humilhação Deus não tem de sofrer em seu Espírito por nós! Ele se humilhou em Seu Filho na cruz, Ele sempre se humilhou desde adão e continua se humilhando até o presente quando mesmo um cristão peca! Mas terrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo, quem ainda não caiu é porque está sendo coberto de misericórdia e graça, mas quando o Senhor resolver se afastar em ira, que terrível fim este homem terá, pois não soube aproveitar a grande paciência com que o Senhor o tratou para se arrepender e crer! Toda a glória, honra, força e poder sejam dadas ao Senhor Jesus, nosso salvador, que com eterno amor nos amou e nos atraiu e que com sua cruz nos reconciliou com o Pai. Em postagens anteriores costumei dizer que nossa alma era formada de amor por sermos criados à imagem de Deus. Mas, se nossa alma fosse formada de amor, eu sempre amaria meus próximos. No entanto, eu, às vezes, os odeio, tenho inveja. Minha língua é homicida quase que diariamente, pratico a mesquinharia! Sou miserável e orgulhoso, quando estou distante de Deus e não estou bem com minha esposa, pratico o adultério com meus olhos! A palavra de Deus nunca afirmou que nossa alma é formada de amor, o que eu fiz na verdade foi uma construção filosófica, prática que adquiri no curso de mestrado em teologia. Na verdade o amor não é o Espírito, mas um fruto do Espírito (Gl. 5), o Espírito Santo é Deus. Se fôssemos formados de amor, amaríamos a Deus, mas “não fomos nós que amamos a Deus, ...foi Ele quem nos amou e enviou Seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (Jo. 4.10). Não somos dignos desse amor e ainda respiramos por conta das ternas misericórdias de Deus, senão já estaríamos consumidos por nossos pecados.

Que grande perigo corri ao tentar analisar a formação da alma do homem por critérios humanos! Que perigo é esse? Ao me centralizar na alma humana, poderia me decair a esquecer do poder de Deus que a tudo excede. O homem certamente é incrível, mas o poder de Deus é mais incrível ainda! Centralizar-me no tesouro do homem (seu espírito pessoal), poderia me levar a tornar-me um panteísta evolucionista que se firma no poder de um homem divino e evolucionário. Mas a Cruz me mostrou algo real a respeito do homem. Na verdade o homem é apenas um vaso de barro, criado, pequeno, humilde, que possui teleologia sim, mas a teleologia (propósito) de Deus, ele é fraco, limitado, precário, pobre, cego, nu e acima de tudo, pecador, um maldito diante da santidade de Deus. Quase tropecei na cruz, mas o Espírito Santo, meu guia, meu selo e meu penhor, não permitiu, trouxe-me de volta para a luz, a sua palavra pura, santa e infalível.

Por isso, aprendi que o foco da minha vida deve ser o poder transcendente de Deus que a tudo excede (2 Cor. 4.7). O Espírito do Senhor tem me ensinado que o foco principal é o amor de Deus, mais que isso, a Sua Graça, que é amor dado a quem não merece e a Sua ira, fruto da santidade do Senhor, enfim, todos os atributos do Senhor e não os atributos do homem. Por que devemos nos extasiar com os atributos do Senhor?  Porque eles não vêm do homem e, apesar disso, eles são reais, foram manifestos pela história! São os atributos de Deus que movem a história e toda a humanidade! Mas como é difícil ter essa compreensão! Na verdade essa é a dificuldade de toda a humanidade, pois a Deus eu não posso ver, nem tocar, e às vezes nem sentir! A tendência é sempre ver Deus dentro do homem, o perigo está em sintetizar os dois para criar um homem-deus, por isso o caminho mais fácil é sempre o panteísmo. Deus, na verdade, é Altíssimo, não que Ele esteja apenas lá no alto, mas que Ele é transcendente ao homem, sua essência permanece fora do homem. Parece tão óbvio, mas o mundo hoje não crê nisso, apenas a igreja cristã reformada e seus herdeiros. Quer ver por que digo isto? Os católicos, p.ex., ao atribuir a divindade a Maria e aos apóstolos não estão porventura fazendo aquela síntese panteísta e afirmando, assim, que Deus não é o Altíssimo, mas sim aquele que está completamente imanente em Maria e nos apóstolos, confundindo assim Deus e os homens? E os neopentecostais, quando atribuem poder divino à palavra do homem para que este tenha o poder de adquirir coisas e riquezas? Isto também não é uma forma de panteísmo? E o que dizer dos budistas, dos hindus, dos espíritas, dos tribais que afirmam a imanência completa de Deus na criação e nos homens? O que dizer dos cientistas modernos que se acham donos da verdade, fazendo-se deuses? Por isso, apenas a igreja invisível de Deus pode declarar em sua adoração: “Santo, Santo, santo é o Senhor!” hoje em dia, somente esta igreja pode cantar assim, porque a maioria já não crê que Deus é todo Santo, separado da criação, o Altíssimo e o Sublime. Esse risco não quero correr. Stott me reabriu os olhos em relação a isso. Ele diz que “quando pensarmos no Deus grande e vivente, é melhor olharmos para cima do que para baixo, e para fora do que para dentro de nós mesmos” (p. 98).

Se eu continuasse me centralizando nos poderes e dons humanos, mesmo reconhecendo sua procedência divina, poderia cair num abismo sem volta, a saber, de supervalorizar o homem e desconsiderar a gravidade do pecado. John Stott me lembrou bem a respeito da gravidade do pecado como podemos ver abaixo:


Cada pecado é uma quebra do que Jesus chamou de o primeiro e grande mandamento, não apenas o fracasso de amar a Deus com todo o nosso ser, mas também a recusa ativa de reconhecê-lo e obedecer-lhe como o nosso Criador e Senhor. Rejeitamos a posição de dependência que o fato de sermos criados envolve, e procuramos ser independentes. Pior ainda, ousamos proclamar nossa auto independência, nossa autonomia, o mesmo que reivindicar a posição que somente Deus pode ocupar. O pecado não é um lapso lamentável de padrões convencionais; a sua essência é a hostilidade para com Deus (Rm. 8.7), manifesta em rebeldia ativa contra Ele. Ele tem sido descrito em termos de “livrar-se do Senhor Deus” a fim de colocarmos a nós mesmo em seu lugar, num espírito altivo de “poderosidade divina”. Emil Brunner resume esse pensamento muito bem, ao dizer: ‘Pecado é desafio, arrogância, desejo de ser igual a Deus... Asserção da independência humana contra Deus... Constituição da razão autônoma, moralidade e cultura’. É com muita razão que ele intitulou o livro do qual tiramos essa citação ‘Homem em Revolta’ (Stott, p. 80).



Por isso, por mais que minha intenção fosse genuína de querer ver o poder de Deus naquilo que o homem é, correria sempre o perigo de tropeçar para cair num humanismo filosófico. O tesouro que Paulo se refere em 2 Corintios 4.7 não é a alma do homem, esta tão corrompida e má, mas sim o conhecimento da glória de Deus na face de Cristo. É a semente de Deus, Sua palavra que é eterna. É este o verdadeiro tesouro, pois é através deste tesouro que o mundo foi criado! O mundo passará, mas a sua palavra é eterna. Meu Deus! Como Tu És glorioso! O homem é completamente pecador! O seu pecado ofende completamente o Espírito de Deus! O pecado não é apenas um desvio de padrões convencionais, mas uma hostilidade contra a Pessoa triuna de Deus! Qualquer pecado faz do homem o seu próprio deus. Quanta humilhação o Espírito de Deus não tem de passar porque habita comumente no ser humano depravado! O pecado reina hoje, e, no entanto ele não é nem reconhecido nem tratado, e Deus continua revelando Sua paciência santa para que seus escolhidos sejam tocados no tempo determinado. É o pecado que nos separa de Deus! Definitivamente o maior tesouro do homem não é sua alma tão corrompida pelo pecado (Marcos 7.21-23). O maior tesouro que podemos ter é o Espírito Santo de Cristo e Sua palavra. Ora se temos a semente divina em nossos corações, não morreremos, não passaremos pela corrupção como acontecerá com o mundo, pois este um dia passará, mas a palavra de Deus nunca passará e a semente que há em nossos corações é a palavra eterna de Deus, a semente da vida (1 Pe. 23-25). O tesouro mais valioso não é a alma do homem, mas a Palavra de Deus, transmitida à alma pelo Santo Espírito que habita no homem regenerado, que visa glorificar o Filho da eternidade, Jesus Cristo, o único Deus-homem, digno de adoração.


A palavra de Deus glorifica a Jesus Cristo de Nazaré! Se há um ser humano que podemos dar-lhe toda a glória, é Jesus! Seu Ser, onipotente, onipresente, eterno, onisciente e ao mesmo tempo homem perene, é incrível e fascinante! Ele é o nosso maior tesouro! Somente Cristo tem a natureza cem por cento divina e cem por cento humana, ninguém mais.   Cristo habita em mim? Sim, mas Ele é transcendente a mim, está lá à direita do trono. Ele habita em mim não porque sou digno, mas por que seu amor quer me salvar do meu pecado hostil. Ele habita em mim para poder abrir meus olhos para sua palavra, a semente incorruptível de Deus, para eu conhecer sua glória divina. Cristo habita no homem redimido, mas este homem redimido não é um deus. Somos criaturas divinas sim (Jo. 10.34-35, 2 Pe. 1.4), pois temos o Espírito de Deus, mas continuamos a ser tão somente criaturas, não somos criadores, eternos, onipotentes, oniscientes, onipresentes! Acho que é esse o mistério oculto de todos os séculos e gerações que Paulo se referia, pois foi a partir de Cristo que a humanidade pagã pôde conhecer a transcendência da pessoa de Deus, ou seja, como que embora Deus habite com seu Espírito no homem redimido, ele continua sendo um Deus pessoal, totalmente transcendente ao homem, Ele é o criador, é o Pai de seus filhos adotivos, e nós somos as criaturas e filhos redimidos que recebem a presença do Pai em nós mesmos por intermédio da pessoa e da obra de Cristo na cruz. Daí, é pela fé conhecedora que entro em comunhão com o Pai, pela fé dada por Cristo.


Não posso perder meu tempo buscando termos humanos para conhecer a Deus, mas pela fé, crendo nas escrituras, palavra revela do Senhor, vou buscar o maior tesouro que posso ter: o conhecimento da glória de Deus na face de Cristo (2 Cor. 4.6). A vontade de Deus e a sua palavra devem me guiar aqui e na eternidade, não a sabedoria dos homens. Confesso que às vezes me pego numa batalha mental por causa das qualidades humanas, visto que ora somos tidos como criaturas divinas, dignas, o que realmente somos, ora como criaturas malditas, indignas pelo pecado, o que realmente somos também. Mas até essa fixação que eu tenho pelo pecado e pela (in)dignidade do homem perante Deus é sadia. John Stott me conforta neste aspecto quando diz o seguinte:



Um reconhecimento completo da responsabilidade humana e, portanto, da culpa, longe de diminuir a dignidade dos seres humanos, na realidade a aumenta. Pressupõe que os homens, diferentes dos animais, são seres moralmente responsáveis, que sabem o que são, podiam ser e deviam ser, e não se desculpam por sua medíocre performance... Pecado não somente é a tentativa de sermos Deus, mas também a recusa de sermos homem, afastando, assim, a responsabilidade de nossas ações.

A Bíblia leva o pecado a sério porque leva o homem a sério... Faz parte da glória do ser humano o fato de sermos responsáveis por nossas ações. Então, quando reconhecemos nosso pecado e culpa, recebemos o perdão de Deus, entramos na alegria da sua salvação, e, assim, nos tornamos ainda mais completamente humanos e saudáveis. Doentio é o espojar-se na culpa que não leva à confissão, ao arrependimento, à fé em Jesus Cristo e ao perdão. (Stott, p.91).




Às vezes quando me ponho a contemplar a essência do homem, seu espírito, como que sua existência pôde existir (que incrível!), fico impressionado. Impressiono-me também com a potencialidade humana por causa de sua dignidade, mas na maioria das vezes fico mais impressionado é com o amor daquele que está assentado no trono, que é o bem mais valioso, e lembro automaticamente da hostil pecaminosidade e corrupção humana, a prova maior sou eu mesmo, pois não adoro a Deus como deveria, mas prefiro a idolatria egocêntrica. Assim, Não é porque sou uma criatura divina que sou digno do amor de Deus, mas sim porque Deus é amor, Ele me ama e me criou por Seu amor, por isso sim, ele me despensa Seu terno amor! Antes que eu existisse, Seu amor é eterno. Fui criado por Seu amor, e mesmo assim resolvi tomar o lugar de Deus e me auto-outorgar deus através do meu pecar. Inequivocamente o pecado me leva a auto idolatria. Qualquer pecado. Tanta é a gravidade do pecado frente à gloriosa majestade do Altíssimo! Como sou maldito! Não quero saber de mim, mas quero conhecer meu Criador que me regenerou e me fez bendito em Seu Cristo, este que com todo o Seu ser e sua alma levou a minha maldição tornando sua própria alma pecaminosa, adúltera, podre e corrompida, sofrendo ele mesmo a depressão, a angústia, as trevas e o abismo existencial da minha alma maldita (meu Senhor!), minha consciência culpada ele carregou consigo, por isso Ele experimentou a terrível separação de Seu Pai, coisa que nunca lhe havia acontecido. A dor física na crucificação era o de menos, ele mesmo havia ensinado a seus discípulos que deveriam sofrer e morrer com alegria no coração, então por que o Senhor suou gotas de sangue na agonia preconizante do jardim? Porque foi a Sua alma dilacerada, moída, tornada em trevas, o que mais o fez sofrer e ter medo da cruz, visto que ele é eternamente luz. Jesus, sendo eterno Deus, Santo, Santo, Santo, imutável, com olhos puros demais para contemplar o pecado, Ele mesmo se tornou pecado diante de Deus o Pai, para que eu me tornasse justiça de Deus – agora entendo o grito de desamparo na cruz e entendo também por que o sol não quis brilhar durante três horas (a própria luz do mundo, Jesus Cristo, teve de experimentar as trevas), o Pai estava finalmente separado do Filho por causa do meu pecado. Mas na verdade, não foi meu pecado que em última instância que levou meu Jesus a cruz. Até aqui temos a tendência de centralizar o poder do homem. É preciso compreender primeiramente a ira majestosa de Deus, fruto da Sua santidade. Deus é Altíssimo, está longe do pecador. Deus é luz inacessível que nenhum homem pode ver, Deus é fogo consumidor, horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo. Deus vomita o pecador, pois sente náuseas do mal. É preciso conhecer o poder da majestade da ira do Altíssimo para compreendermos a cruz, pois “somente aquele que conhece a grandeza da ira será dominado pela grandeza da misericórdia” (p. 99). De forma que o perdão é o problema mais profundo de Deus. Ao mesmo tempo em que Ele se ira em Sua santidade, Ele também ama o pecador. Para o homem o pecado não tem tanta importância, mas para Deus é um problema quase que irresolvível, pois Ele precisa satisfazer Sua eterna santidade que se manifesta em ira.


O único digno de receber louvor e adoração é o Senhor e Salvador Jesus Cristo, fascinante em Sua Glória! Frente a esta verdade, não posso me ater a filosofias humanas, pois nada são, mas tão somente a palavra das escrituras divinamente inspiradas, que é lâmpada para os meus pés e luz para os meus caminhos. Para muitos crentes isto pode ser tão óbvio, mas para mim, que desde quando entrei num mestrado de teologia onde se menosprezava a palavra de Deus, tudo se tornou difícil, como esse simples retorno às escrituras, mas glória ao meu Deus altíssimo, que me trouxe de volta pra casa, me fez atravessar de volta o abismo tão perigoso da sutileza que há entre a teologia liberal (propagada na maioria das faculdades teológicas de hoje) e a filosofia. Como me sinto em paz e descansado agora. O Senhor é a minha âncora, voltei para meu porto seguro. Enfim, entre confiar no homem e confiar em Deus e na Sua palavra, prefiro a melhor opção.

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