quarta-feira, 6 de junho de 2012

Compreendendo a cruz de Cristo


               Comecei a reler o livro intitulado “A Cruz de Cristo” de John Stott, e a minha alma começou a queimar por dentro com esta indagação: por que a cruz de Cristo é escândalo para os ‘sábios’, mas é sabedoria de Deus para os que confiam no Seu poder?

               “Quanto mais os incrédulos negarem seu caráter crucial, tanto mais os crentes encontrarão nela a chave para os mistérios do pecado e sofrimento” (p. 34, A Cruz de Cristo, John Stott). Que citação Incrível! Que sabedoria inefável de Deus! Quanto mais o mundo nega a cruz e o pecado, mas os cristãos passam a vislumbrar a essência da vida, do pecado e da própria cruz! Isso só pode ser coisa de Deus, é pura revelação! O homem não pode criar uma história assim, pois ele mesmo a nega.


               Durante toda a história existiram, existem e existirão duas formas de se encarar a vida, como podemos ver no esquema abaixo:

(1) A concepção da pessoalidade de Deus que desencadeia na seguinte verdade:

(a) O homem é um ser espiritual criado (ex. dos assim creem: os cristãos, a sociedade científica teleológica do design inteligente, os judeus, estes que apesar de terem conhecido Javé, rejeitaram sua salvação pelo Seu Filho); 

(2) A concepção da impessoalidade de um deus, sendo que esta se desdobra em dois ramos: 

(a) a concepção de que essa energia (um tipo de deus) impessoal e imanente na natureza e no homem leva este último a uma evolução espiritual junto à deusa natureza (os budistas, os hindus, os espíritas, os mulçumanos, as sociedades primitivas, os filósofos hegelianos-românticos, os filósofos contemporâneos  e pós-modernos, os existencialistas ateus. Estes todos são os panteístas); 

(b) a concepção de que essa energia (um tipo de deus) impessoal e imanente na natureza e no homem leva este último a uma evolução completamente natural, ou seja, o próprio homem é autossuficiente, autônomo, evoluído por seus próprios esforços e “por ter vencido a deusa natureza”, ele se sente deus de si mesmo (a sociedade científica naturalista, os ascetas e a sociedade civil histórica – aquela que não aceita a teleologia do Criador, ou seja, o propósito divino claramente impresso na criação. Estes todos são os panteístas-naturalistas).

É somente quando se trata o homem como um ser criado a imagem de um Deus pessoal é que a cruz de Cristo passa a fazer sentido. Na aparência, na sua existência, ela (a cruz) é loucura, escândalo, mas na sua essência, ela é revelação da sabedoria, da graça, do amor e da justiça de Deus. Ela rasgou o véu da história, ela é a chave da história, ela é a principal prova de que Jesus Cristo é o próprio Filho de Deus, por isso Ele disse no momento imediatamente anterior a da sua crucificação: 


Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que também o Filho te glorifique; assim como lhe deste autoridade sobre toda a carne, para que dê a vida eterna a todos aqueles que lhe tens dado. E a vida eterna é esta: que te conheçam a ti, como o único Deus verdadeiro, e a Jesus Cristo, aquele que tu enviaste. Eu te glorifiquei na terra, completando a obra que me deste para fazer. Agora, pois, glorifica-me tu, ó Pai, junto de ti mesmo, com aquela glória que eu tinha contigo antes que o mundo existisse (Jo. 17.1-5).

Como pode ser? A cruz um momento de glorificação? A cruz talvez tenha sido o instrumento de tortura e morte mais terrível que já existiu, destinado para os malditos. Mas Jesus sabia que a hora da crucificação e morte era a Sua própria glorificação. Meu Deus, que mistério é esse? 


Não há ruptura maior entre a fé e a descrença do que as atitudes respectivas deles para com a cruz. Onde a fé vê a glória, a descrença vê apenas desgraça. O que era loucura para os gregos, e continua sendo para os intelectuais modernos que confiam em sua própria sabedoria, é, contudo a sabedoria de Deus. E o que permanece como pedra de tropeço para os que confiam em sua própria justiça, como os judeus do primeiro século, prova ser o poder salvador de Deus (p. 33, Stott).

Os que vivem de aparência e de existência egoísta se escandalizam com a cruz, pois a aparência existencialista depende do pensamento evolutivo para se fundar. É a evolução o motor do homem natural. Este consegue confiar em si próprio porque pensa ser um animal evoluído, fora de série, que chegou ao topo por seus próprios méritos. Daí o negar o criador, pois ele (o homem) pensa ser autônomo e autossuficiente. Ele pensa não possuir um espírito, mas uma consciência evoluída, civilizada, educada, trata-se do próprio super-homem idealizado por Nietzsche. Este filósofo, inclusive, nunca aceitou o cristianismo por se tratar de uma religião da misericórdia, do oprimido, do fraco e abatido, visto que isto contradiz a teoria da evolução, do mais forte, do mais capaz. Quantos hoje não pensam dessa forma? A maioria crê nessa enganação, principalmente os cidadãos dos países desenvolvidos. Por isso mesmo a cruz de Cristo é uma pedra de tropeço, pois onde está aparentemente a fraqueza, Deus revela seu poder para salvar os perdidos que foram desde a eternidade eleitos por seu amor indizível. Todo aquele que contempla e cruz e vê ali um sinal de decadência é porque o Espírito Santo não habita nele, trata-se de um morto-vivo, um animal que confia na sua própria evolução, dentre tantos posso dizer do moralista que pensa que por sua própria justiça fundada na sua “consciência evoluída” o fará salvo, mesmo não crendo na glória de Deus na face de Cristo (2 Cor. 4.6). Este pensa que sua moral é elevada por ser um homem superior e evoluído, nem passa por sua mente ser essa moral um resquício da imagem de Deus em seu ser, é a própria presença graciosa e comum de Deus nele como em todos os homens (Gn. 6.3), o moralista não pode perceber que ele vive tão somente por causa da misericórdia do Altíssimo, por isso ele não crê no Filho e em Sua glória. Mas todo aquele que vê a glória do Filho unigênito de Deus na cruz, já recebeu o Espírito glorioso de Deus, foi regenerado, sua pessoalidade humana foi restaurada (apenas os espirituais são completamente pessoais), pode enfim se relacionar como pessoa santa com a Pessoa do Criador  três vezes santa. 

Quer ver por que eu digo que apenas os espirituais são verdadeiramente pessoas? Tomo o exemplo do casamento criado por Deus. Quando o esposo abre asas para suas paixões carnais e passa a adulterar, ele deixa de ser uma pessoa propriamente dita, para se tornar um animal impessoal, totalmente imanente na natureza (nas mulheres – que são feitas de barro), pois perdeu a capacidade de se relacionar com a pessoa de sua esposa, deixou de liberar, assim, amor para a pessoa do seu cônjuge. A marca da pessoalidade é exatamente o relacionamento de amor verdadeiro. Quando damos vazão para o pecado nos tornamos seres impessoais, animais mesmos, perdemos as bênçãos de Deus que em nós habitavam e começamos a andar em direção à impessoalidade, ou seja, ao despropósito, ao caos, à deterioração e enfim, morremos literalmente, nosso ser se torna completamente impessoal ao se voltar para o barro da natureza, nos tornamos completamente imanentes, românticos  e o espírito maldito vai para o inferno da inexistência de graça e bênçãos da pessoa divina. Não quero isso para mim, quero viver, ser parecido com meu Criador, quero vê-lo face a face, quero me relacionar com ele, não quero ser impessoal, romântico, traindo minha esposa, correndo como um cão atrás das paixões da carne e do coração tão pecador e enganoso! (Senhor, me livra do mal!) Quero ser santo! Acaso não é por causa da santidade que somos pessoas? Pois é. Temos essa casa de barro repleta de desenhos inteligentes e de uma teleologia (propósito divino) incrível tão somente porque habita um espírito em nós! Não fosse esse espírito, ainda seríamos pó! Somos transcendentes (separados) do barro da natureza por causa desse espírito! Ao passo que se nos entregamos ao pecado, essa casa de barro começa a se desfazer para voltar ao pó e se tornar completamente imanente com a natureza. É a santidade que nos faz ser vivos e sermos pessoas, sem ela estamos mortos! É por isso que o Senhor tanto nos exorta para uma vida em santidade, não é por menos, é para o nosso bem, para sermos pessoas completas, para termos vida em abundância e não perdermos o Seu Espírito. Por tanto, eu quero amar minha esposa com o amor dado por Deus, um amor santo, separado, aquele amor que tanto valoriza  a pessoa da minha esposa. Ora se o amor que tenho não valorizar e abençoar a pessoa da minha esposa, esse amor não pode emanar de Deus, pois a Sua palavra afirma que Deus criou o homem, homem e mulher os criou, e os dois serão uma só carne, o homem, pois, amará a sua mulher, assim como Cristo amou a sua Igreja, e mais, Deus disse que odeia o divórcio (Gn. 1.27, I Cor. 6.16, Ef. 5.25, Ml. 2.16). Portanto, o amor santo que vem de Deus, aquele que vai me trazer bênçãos, vai me tornar uma pessoa digna de se relacionar com a pessoa do próprio Criador três vezes santo, é o amor de marido e mulher, não o “amor” de adúltero, nem o de homossexual, pois o Senhor assim o disse. Tenho sempre falado a respeito do romantismo. No entanto esse romantismo a que me refiro é o em sentido latu. Na verdade não podemos ser românticos em sentido latu, pois esse romantismo crê que o amor é um deus impessoal e não um atributo pessoal de Deus. Devemos sim ser amantes de nossos cônjuges. No fim das contas o romantismo do senso comum é aquele que praticamos com nossos cônjuges quando somos verdadeiros amantes e confiantes de que Deus é a razão do amor. É o romantismo filosófico que ataco e não o do senso comum.

Enfim, O que há de tão precioso na cruz? Ela é a resposta para o que nós os seres humanos somos. Ela diz tudo sobre nós, ela revela quem nós somos. A mensagem da cruz revela isto: olha vocês são seres espirituais. Vocês tem um espírito ai dentro, o tesouro de vocês (Lc. 6.45)! Mas por causa do pecado, esse espírito foi transgredido, ficou manchado, como uma obra-prima deteriorada. Outra coisa: Somente os homens espirituais são realmente pessoais! O fruto do espírito não pode ser compartilhado por animais ou objetos inanimados! Somente pessoas podem compartilhar o fruto do espírito, Deus é pessoal e esse Espírito que vem dele, o Espírito Santo, também é uma pessoa! Porque vocês acham que quando uma pessoa se joga no lamaçal do pecado, ela deixa de ser pessoa e passa a se tornar um animal irracional? Porque é isso que o pecado faz! Ele deteriora a sua pessoalidade, seu espírito e o torna num ser impessoal, num animal. É por isso que Deus, o Criador, se ira tanto com o pecado, pois é a imagem dEle em vocês que está em jogo. Então por que foi necessária a cruz? Porque vocês são seres espirituais! São joias do Senhor (Lc.15.8-10), criações dEle, suas obras-primas, mais importantes que o sol e as estrelas do céu (Sl. 8)! Se vocês fossem realmente naturais como dizem os “sábios” ascetas, o Senhor não se encarnaria para morrer numa cruz em seus lugares. É por isso que os sábios deste mundo se escandalizam! Estes que pensam ser naturais e evoluídos, e por isso mesmo se tornam superficiais, veem a cruz superficialmente e a tratam superficialmente, não podem atinar que ela traz a própria sabedoria e a revelação do Senhor! O mundo não entende que o amor é um fruto do Espírito! Eles pensam que é uma energia impessoal, uma força universal que muitos chamam até de Brahma! Que loucura! Que falta de sabedoria! Os cientistas também não conseguem explicar o amor. O amor não é um deus! Deus é amor! O amor só pode ser compartilhado por pessoas, mas os humanos não são a razão do amor, visto que são criaturas essencialmente decompostas e impessoais por causa do pecado. Deus é a razão do amor, Deus é uma pessoa que se relaciona! Todo espírito é uma pessoa! Todos são pessoas, vocês, humanos, também são pessoas por possuírem um espírito! O animais não são pessoas, pois não possuem um espírito! Por isso foi necessário a cruz, para revelar de uma vez por todas a pessoalidade do Criador (o Senhor Jesus Cristo) e para julgar os pecados que tanto causaram ira à santidade do Criador cujo Espírito sempre esteve graciosamente em vocês, ora como Ele é uma pessoa três vezes santa, Ele se indignou contra vocês, assim como vocês se iram quando alguém peca contra vocês, pois vocês são pessoas! Mas Ele é Santo, Santo, Santo! É justo! É imutável! (Ml. 3.6) Não poderia deixar o pecado impune! Pecado este que tanto destruiu Sua imagem em vocês! 

A mensagem da cruz revela mais isto: Deus é uma pessoa e vocês são seres espirituais que necessitam nascer de novo. É justamente por isso que a cruz é a chave e o centro da história, porque ela revela quem é o autor de toda a história e revela também quem são vocês, não é isto que vocês sempre quiseram saber desde que foram criados? Conhecer o Criador e saber de onde vocês vieram? Esta não é a razão de todas as guerras e revoluções de vocês? Por causa da busca por esse tesouro espiritual que vocês nunca puderam encontrar, vocês então se lançaram na busca pelos ouros e pratas, pelas riquezas deste mundo, muitos até morreram tentando encontrar riquezas em terras que nunca existiram, terras distantes, pensando que isto tudo pudesse preencher o vazio que só Deus poderia preencher. Daí, nesta cobiça desenfreada por riquezas que pudessem preencher a alma, vocês fabricaram guerras e revoluções. Nisto se resume toda a história humana sobre a face da terra, mas a cruz finalmente rasgou para vocês o véu da história e revelou que o tesouro verdadeiro é Cristo e este crucificado. O tesouro verdadeiro foi revelado: o Senhor é uma pessoa que tem um relacionamento eterno com Seu Filho querido e com Seu Espírito Santo, e vocês são seres espirituais criados a imagem de Deus que necessitam de regeneração para a eterna redenção (Hb. 9), para o gozo inexprimível ao qual vocês foram criados. Creiam no Filho unigênito de Deus que está em Seu seio (Jo. 1.18) e vocês viveram, pois foi Jesus quem revelou o Pai, e agora o Espírito Santo quer revelar a glória de Cristo Jesus em seus espíritos! 


O mistério que esteve oculto dos séculos, e das gerações; mas agora foi manifesto aos seus santos, a quem Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, a esperança da glória (Col. 1. 26-27).

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