Comecei a ler o livro intitulado
‘O Caos Carismático’ de John MacArthur (1992). Logo fiquei surpreso quando o
autor relatou a cerca de uma conversa com certa mulher que estava incomodada
com o “tom negativo” deste mesmo livro em sua primeira edição. Ele escreveu
assim:
Certa mulher escreveu-me em tom
raivoso: “você recorre a traduções gregas e a palavras pomposas para explicar o
que o Espírito Santo tem realizado na igreja hoje. Quero dar-lhe um conselho
que pode salvá-lo da ira vindoura do Deus Todo-poderoso: ponha de lado sua Bíblia e seus livros e pare de estudar. Peça ao
Espírito Santo que venha sobre você e lhe conceda o dom de línguas. Você não
tem o direito de questionar algo que nunca experimentou” (p. 24).
Mas o autor passa a demonstrar
que mesmo o Apóstolo Pedro com toda sua experiência com Cristo sempre deu maior
importância a Palavra da verdade, pois elas é que dão testemunho de Cristo
(2Pe. 1.19-20), assim como o apóstolo Paulo (2Tm 3.16).
Algumas questões sempre me vêm à
mente quando paro pra pensar no problema carismático dos neopentecostais
brasileiros. Essas questões têm a haver com os dois setores da alma no que
tange ao contato com a realidade objetiva, ou seja, aqueles dois mecanismos
distintos entre si que são responsáveis cada um por uma função diante da
realidade: o setor cognitivo (o conhecimento) e a experiência (as sensações e
emoções). Penso como MacArthur que o problema central do cristianismo hoje é
que não há a compreensão devida da alma
humana em relação à realidade e à verdade revelada de Deus – As escrituras
sagradas. Dentre tantas questões que me faço, listo estas:
·
O processo de conhecimento na alma faz parte da experiência,
ou apenas o sistema de reação da alma (as emoções e sensações) se configuram
como experiência?
·
O processo de conhecimento que o homem passa
pode ser considerado uma experiência?
·
Conhecer a glória de Deus na face de cristo pela
revelação do Espírito Santo se caracteriza experiência?
·
Conhecer a Deus é o mesmo que experimentar Deus?
·
Não seria através da palavra que o homem conhece
as coisas que não se experimentam?
·
Conhecer é experimentar ou não?
Na verdade, toda experiência
depende do tato, do olfato, do paladar, da visão, do escutar e das emoções. Mas
o conhecimento não depende de nada disto! Então o conhecimento não é
experiência, o conhecimento é a fé! É pelo conhecimento da fé em Jesus Cristo que
podemos ter livre acesso às “coisas que olhos não viram, nem ouvidos
ouviram, nem penetraram o coração do homem” (1Cor. 2.9), às coisas inefáveis e
maravilhosas de Deus que nos levam à piedade e ao santo temor de Deus! Através
da fé passamos a amar a Cristo e a obedecer a Seus maravilhosos mandamentos e
assim todas as bênçãos do Pai recebemos através da fé que nos foi dada por
Cristo, o autor e consumador da nossa fé (Hb 12.2).
São incríveis as semelhanças
entre a fé e o seu autor (Deus): a fé não tem cheiro, não tem som, não tem
imagem, não tem matéria, não se pode sentir. Assim também é a substância ou
essência divina: não tem cheiro, nem imagem, não é matéria, não pode ser
sentida pelo homem. Talvez seja por isso que Deus tanto exalta a fé em seus
filhos, pois é essa fé, esse conhecimento que Deus revelou a seus filhos
adotivos em Cristo, que O glorifica e que dá verdadeiro gozo ao homem redimido.
John MacArthur diz o seguinte:
“Os carismáticos erram por tentarem alicerçar seu ensinos na experiência, em
vez de entenderem que a experiência autêntica ocorre como resposta à verdade” (Pag. 26). Muito verdadeira essa afirmação,
visto que a experiência ocorre num setor diferente do setor cognitivo. Ou seja,
a experiência tem caráter de reação, de resposta (emoções, êxtases, júbilo,
alegria, paz). A fé, por sua vez, age no âmbito do conhecimento, do cognitivo
(apreensão ou acolhimento da glória Deus e de Sua palavra). Assim sendo, a
igreja de Deus não pode alicerçar sua vida com Deus na experiência, pois esta é
apenas um mecanismo gracioso dado por Deus para que possamos responder ou reagir
diante da magnificente glória revelada do Criador. A igreja precisa de
fortalecer e se alicerçar na fé dada por Cristo, na esfera
cognitiva, do conhecimento da glória de Deus na face de Cristo, e esta glória,
antes de tudo, é objetiva ao homem, está primeiramente revelada na Palavra de
Deus para depois ser revelada em nossos corações. Após esse processo de
conhecimento glorioso é que poderemos saltar de alegria, jubilar, bater palmas,
gritar glórias, cantar cânticos em estado de êxtase! É a combinação entre essas
duas esferas da alma - primeiramente o conhecimento da revelação (que só o
Espírito Santo pode nos dar) e depois a resposta emotiva e experimental - que
gera um verdadeiro avivamento, visto que foi primeiramente dado por Deus pela
Sua verdade. Quando isto acontece, finalmente a existência se rende a essência,
ao contrário do que o mundo prega hoje em dia de que é o homem, através de suas
escolhas e experiências existenciais, que constrói sua essência a partir de si
mesmo. Mas na verdadeira adoração pela fé, podemos transpor esse abismo
existencial (totalmente dependente da experiência) e conhecer nossa essência, que é a inefável vida de Cristo em nós, a
esperança da nossa redenção e glorificação.
Por outro lado, há de se convir
que quando a igreja ignora a existência humana que se expressa em suas emoções,
o culto perde seu significado pleno. Certamente a essência humana (a vontade do
Criador em criar o homem) precede sua existência, mas não a prescinde. Assim, o
conhecimento da glória de Deus e Sua vontade precede a experiência emotiva, mas
não abre mão dela. Deus nos criou seres emotivos, foi Ele quem fez isto, para
que pudéssemos responder ao Seu amor
com choro de alegria, brados de
louvor, gritos estridentes de vitória,
bater palmas em júbilo, para que
pudéssemos levantar nossas mãos em profundo
anseio de abraçar nosso Pai querido e para que pudéssemos cair prostrados
no chão em profundo medo de Deus por
causa dos pecados. Há muitas igrejas reformadas que fazem essa supressão e não
permitem que seus membros possam responder
emotivamente à revelação da Palavra de Deus em seus corações.
Enfim, tudo deve estar dependente
da revelação da verdade, pois a experiência não se sustenta sozinha, ela é
apenas uma resposta emotiva à verdade bíblica que testemunha do Filho da
eternidade. Aquele que se prende apenas na experiência pratica a vaidade (para
não dizer idolatria) fruto da ignorância, pois está na verdade adorando a si
próprio e suas emoções provocadas pelos apelos ou fenômenos externos do culto
bem produzido. Mas aquele que prima pelo conhecimento da glória de Deus na face
de Seu Cristo encarnado, Jesus, pode então responder genuinamente com todo
êxtase e pode também oferecer suas emoções unidas ao sacrifício de louvor,
fruto dos lábios que confessam (que receberam a revelação do conhecimento do) o
nome de Jesus Cristo. A experiência é muito importante, mas o conhecimento da glória
de Deus na face de Cristo é mais importante, porque é através dele (do
conhecimento) que somos redimidos e transformados à imagem do Cristo Eterno e
encarnado.
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