Para Hegel, só quem tem o espírito da história é o ocidente civilizado. Assim, só quem tem a sociedade civil, só quem conquistou essa sociedade civil é quem tem o espírito, a consciência histórica. A Índia não tem história, segundo Hegel, porque não teve essa conquista.
É impressionante como isso se assemelha aos pensamentos de Sartre, qual seja: a salvação do homem está na autorealização, mais precisamente aquela que encontra o estopim no engajamento político para a construção da cidadania. É Sartre mais um hegeliano de esquerda ou direita, seja o que for?
Esse espírito está em Hegel, mas também é exatamente esse espírito impessoal que redime o homem satriano existencialista – o espírito da história.
Por isso defendo que a sociedade civil, a dita civilização se apresenta como uma barreira para a adoração ao Deus triuno, o Deus Pessoal. É a barreira da sociedade civil que dificulta a pregação do evangelho e que distancia o povo de Deus da verdadeira adoração, pois a sociedade civil diluiu a imagem (embaçou) do Ser de Deus e transferiu sua soberania ao próprio homem. Antes, a sociedade civil deveria exaltar o criador dos céus e da terra, mas no último dia, essa sociedade se ajoelhará perante o Rei.
Ora se é verdade que a sociedade civil não possui esse chamado – adorar – e sim algo prático que é tão somente administrar a terra sem se envolver com o criador, então porque o livro de apocalipse enfatiza que no último dia todo rei, príncipe, seja o que for, se prostrará perante o Rei dos reis? Mais ainda, por que Cristo recebe um título se senhorio em relação aos reinos da terra se Ele nada tem haver com o governo público da terra? Caso contrário bastaria seu nome de origem – Deus o Filho – pois sua relação seria somente com a igreja, mas esta não possui administração pública, somente o pastoreio espiritual. Então por que Cristo recebeu o título “Rei dos reis”? Porque seu governo sobre os homens será real (rei, res, coisa real, verdadeira). Se for real, será governo no sentido de administração direta sobre os homens, mas não será mais a sociedade civil panteísta, esta não terá mais sentido de ser, será uma assembleia de filhos regenerados. Por isso o reino pertence à igreja. A igreja será a nova sociedade futura, por isso ela é o baluarte da verdade. Não haverá mais sociedade civil romântica (panteísta), somente haverá a igreja adoradora do Deus pessoal Trino.
Ora, essa sociedade civil sabe que a história possui um sentido (em Platão, Aristóteles, Hegel, Marx, Weber etc), mas se finge de morta frente ao Sujeito da ação que revela o sentido. Por isso, ela é nada mais que uma sociedade romântica, pois aceita o propósito, mas nunca o propositor. Uma sociedade fundada numa concepção que exalta uma força impessoal que rege a história. Isto é romantismo, isto é panteísmo, é a velha nova era de sempre. Um propósito mascarado de despropósito – essa é a síntese hegeliana. A tese, o propósito, e a antítese, o despropósito, se fundindo e criando a síntese, o panteísmo, velho panteísmo.
A sociedade civil aceita a síntese. Mas a palavra de Deus a rejeita. Síntese é uma fábula, uma ilusão que presume a união de dois absolutos. O bem e o mal, o macho e a fêmea, o propósito e o despropósito. Síntese é uma mentira do enganador. Síntese é impossível, não é possível sintetizar o propósito com o despropósito, ou a verdade (res, rei) contempla um ou outro. Mesmo assim, a sociedade histórica (a sociedade civil) continua se baseando nessa concepção mentirosa e iludida, uma concepção indiana que Hegel emprestou. Não é possível unir o bem ao mal, o macho e a fêmea (no sentido de desfigurar cada um), pois essa é a ordem do propósito divino, que existam os dois distintamente, entretanto a sociedade civil faz essa síntese.
É exatamente essa síntese civil que engana a igreja e faz barreira à verdadeira adoração em Espírito aqui no ocidente. Essa síntese tem um nome atualizado – nova era ou pós-modernidade. A razão de se dar nomes, de se intitular as eras é essa crença de que a história evolui num sentido, mas esse sentido que faz evoluir a história não teria, segundo o espirito da história, dono, trata-se de uma força impessoal e misteriosa que dá razão a esse sentido, a esse propósito. Por isso o mundo não tem desculpa, pois o propósito foi revelado e o próprio Senhor do propósito também, mas o mundo nega o Senhor. Assim o Espírito convencerá (as melhores traduções desse texto bíblico dizem “culpará”) o mundo por seu pecado, pois negaram o Filho de Deus – a Expressão exata do Ser pessoal de Deus.
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