Para os não-cristãos, o estado é romântico, porque eles sabem que há um propósito na história, mas fingem não saber, e o pior, fazem essa síntese irracional entre propósito e o despropósito, na realidade eles aceitam o propósito, mas negam o propositor. Uma grande contradição, pois não é possível ação sem sujeito, assim como propósito sem propositor. Mas a síntese romântica é a negação da própria contradição. A síntese não aceita a contradição, ela funde os opostos absolutos e cria uma confusão, ou melhor, uma ilusão sem fim.
Propósito não é uma ação, mas uma vontade que gera a ação, é a causa da ação. Depois que a ação cria realidades, esta última vem carregada de teleologia, ou seja, de propósito. O propósito é anterior à ação, e lhe dá forças, mas também incide sobre a ação e é facilmente percebida depois que a coisa é criada, o terceiro observador percebe que esta coisa criada irradia propósito, esse terceiro recebe essa radiação. Por isso, não há propósito sem o apriorismo da existência de um sujeito dono desse propósito – Kant já defendia isso.
Para Deus, o estado é Seu ministro na manutenção da terra e para servir aos homens. A questão que se levanta não é em relação à verdade objetiva de Cristo – o estado, ministro de Deus, que lhe serve mesmo que esta não saiba - mas a verdade subjetiva dos homens, levando em conta que a problemática aqui está em cima da doxologia, da adoração e esta é uma ação subjetiva do homem e não uma ação de Deus. Na adoração, Deus é o objeto e o homem, sujeito da ação. Por isso a preocupação central é: o estado como os homens pensam (relatividade subjetiva) deve necessariamente negar o criador, pois mesmo que a criação radie propósito divino, deve-se negar isto, negar a verdade absoluta, para que as “verdades” relativas sejam amparadas pela garantia da tão sonhada liberdade civil, esta que deve tutelar a dignidade de todo homem para ser livre de qualquer coisa, inclusive de imposição religiosa.
Não se está querendo destruir o direito civil objetivo, mas apenas mostrar como essa dignidade humana tem apagado a dignidade do criador, a partir do momento em que os homens não olham mais para Deus, apenas para seus próprios umbigos dignos de toda a soberania e liberdade civil.
Na verdade o direito civil foi criado por Cristo. Deus o filho, foi quem mais lutou pela dignidade dos homens, por sua preciosidade, tanto que morreu por eles. Cristo tutelou as crianças, as mulheres, os estrangeiros, os órfãos, as viúvas, todos. Cristo quer a liberdade civil do homem, os direitos sociais, os direitos individuais e coletivos. Essa é a verdade objetiva.
No entanto, o subjetivo humano não quer glorificar a fonte de todo direito – Cristo. Tragicamente, o espirito romântico da história incutiu no homem que este mesmo é o soberano da história e não Deus, por isso o estado civil de direito é a maior realização existencialista (sartriano mesmo) que o homem pode ter – esta é a salvação.
É errado pensar numa sociedade civil baseada subjetivamente (stricttu sensu) na soberania do Deus trino? É errado? Ou Deus realmente não criou o estado para tanto, somente para as questões existenciais e a igreja para as questões essenciais? Mas a igreja não é eterna! Antes de cristo ela não existia como uma assembleia humano-divina! Antes de Cristo, como isto se resolvia? Quem ficava com as questões essenciais da vida, visto que não existia igreja? Era o próprio estado. O estado teocrático. E foi assim durante muito tempo. Aliás, na historiografia, consta que o estado de direito é algo novo e recente. A teocracia sempre foi observada pelas nações da história. Aqueles eram tempos em que os profetas repreendiam os reis em nome de Deus. Então, o Senhor não planeja que o estado e a igreja venham a ser no futuro, assim que os salvos forem glorificados e todo o pecado exterminado da face da terra – um só? Creio que sim. Na verdade, não será mais necessário o estado civil, pois a lei (res humana - objetividade humana) é para o pecado (subjetividade) e a graça (res divino – objetividade divina) é para o amor e a adoração (subjetividade). No fim, restará apenas a graça e o amor.
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