Tanto o impressionismo quanto o expressionismo dependem da subjetividade humana no momento da composição artística. O impressionismo é uma síntese da beleza real e objetiva e a subjetividade. Há nele a valorização do real (a beleza da criação) sobre o surreal (a subjetividade). Para a adoração da igreja, o impressionismo é de maior valor, pois se trata do reconhecimento da majestade real de Cristo e por causa de tamanha beleza se canta hinos que retratam essa beleza. Mas a alma (subjetividade) está sempre submissa e embebecida pela beleza de Cristo. O expressionismo não dá valor às coisas reais, mas tão somente a subjetividade humana. Esse expressionismo foi causa imediata ao surrealismo e ao pop rock existencial. Talvez por isso os cânticos de hoje não tenham mais referências à beleza, aos atributos de Cristo, mas tão somente as necessidades e angústias subjetivas.
É certo que um dos ministérios do Filho é a consolação. O principal ministério do Espírito também é a consolação (João 14: 16). Grande é este mistério. No entanto, o consolo para a subjetividade só virá se esta subjetividade se render e se submeter ao Rei. Render significa adorar, reconhecer todas as qualidades desse rei (transcendente, mas real). O cântico de adoração deve ser mais uma impressão das qualidades reais do que a expressão dos sentimentos confusos e enganosos do coração. É um erro dizer que o impressionismo que orientou o classicismo é objetivo demais, seco e sem emoção. O impressionismo assim como o expressionismo depende da emoção totalmente. É pura emoção, mas uma emoção submissa e adoradora a glória de Deus, do Filho e do Espírito. Já o expressionismo não se submete a essa glória, pois é principalmente subjetiva – é uma expressão das qualidades do coração, não tem por isso conteúdo real, apenas surreal.
No entanto, não fora o pecado, o expressionismo seria perfeito, pois sendo a alma sempre conciliada com o Criador, a expressão da alma seria a mais linda possível, e além disso, a expressão da alma procuraria contemplar a beleza do Criador e para tanto lançaria mão dos motivos artísticos da criação. A auto expressão regenerada é algo lindo, pois se trata de uma arte perfeita: o expressionismo (arte do coração = surrealismo) orientado pelo impressionismo (arte da beleza da criação). É isto o que nos diz Martin Lloyd Jones:
Não fora o pecado, o ensinamento da auto-expressão seria adequado. Se o homem tivesse continuado perfeito como Deus criou, então todos os impulsos e instintos estariam operando de maneira correta, servindo aos mais altos interesses do homem (Sincero, mas errado. P. 23).
Neste sentido, não há porque criminalizar a música tribal que se desenvolveu nos EUA e se alastrou no mundo todo. No Brasil, cantores como Fernandinho, têm utilizado amplamente o expressionismo. Como homem regenerado, ele tem liberdade para tanto. Quantas são as almas salvas, consoladas e preparadas para adorar por causa de seu lindo ministério? Seu último trabalho, “Sou Feliz”, exala um expressionismo santo. O uso de pads, guitarras com efeitos, motivos de arranjos que fazem a alma voar em busca do Senhor Jesus e sua glória, são timbres que evocam na alma o prazer pelo mistério, mas não o mistério pelo qual os existencialistas se angustiam em seus rocks – o que vem depois da morte, este Cristo já revelou -, mas o mistério maior e mais glorioso que os filhos de Deus nunca conseguirão decifrar – a grandeza da glória do Pai.
O gospel de fato é expressionista. Aqui a existência busca consolo com o Consolador, o Espírito de Cristo. Na verdade foi o spiritual, o gospel e o blues batista do sul dos EUA que deram os motivos musicais ao rock existencialista. Jean Paul Sartre, o pai do existencialismo ateu, amava ouvir os spiritual e os gospels. Imagino o motivo: A angustia existencial do negro americano sendo completamente expressa em sua música. O negro não procurava motivos na natureza para compor seus gospels, não tinha tempo para contemplar a criação, apenas para trabalhar. Seus cânticos eram expressões puras da alma. Não havia nada de impressionismo; Puro subjetivismo, puro surrealismo. Essa era a atração de Sartre.
Assim como o exemplo da musica das igrejas batistas do sul dos EUA demonstra a legitimidade do expressionismo cristão na adoração, temos que uso do gospel nas igrejas não deve ser impedido, pois se os músicos são regenerados, eles irão produzir adoração pura. Caso contrario, "pelos seus frutos os conhecereis" (Mateus 7: 20), não se tratará de gente regenerada. Se as musicas das bandas não produzem frutos dignos, música de exaltação, mas apenas música de angústia existencial, prosperidade, enfim, necessidades da existência, trata-se de gente neófita na fé. Precisam amadurecer! Precisam conhecer a beleza do Criador para compor seus cânticos. Essa beleza está revelada nas escrituras e também na criação (Sl. 19). O adorador compositor necessita contemplar essa beleza, contemplar os atributos do Criador e todo o Seu ser para enfim compor o amor do coração pelo ser do Senhor.
O expressionismo cristão deve antes de tudo buscar a beleza do salvador e sua glória. O expressionismo cristão expressará tudo o que há no coração regenerado, portanto expressará o amor a Deus e a valorização de Sua beleza Seus atributos e Sua glória. Há uma reconciliação entre as formas artísticas, pois o expressionismo cristão buscará seus motivos no Criador. Isto é a arte perfeita: a música não precisa ser tão objetiva (impressionismo) como a clássica ao querer imprimir fielmente a beleza da criação e reproduzir, por exemplo, o canto dos pássaros, a não ser que os ouvintes queiram. Mas igualmente não precisa ser tão subjetiva ao querer vomitar naqueles que ouvem, como no Rock, as angústias da alma. No coração regenerado, a alma com toda a sua criatividade exprimirá seu amor ao Criador, e como já disse acima, para tanto lançará mão da beleza de Deus e de Seus atributos para compor os cânticos de adoração da alma.
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